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Entre o ser e o não ser dos Bonecos de Santo Aleixo [Auto da Criação do Mundo]

Auto da Criação do Mundo. Atores manipuladores: Ana Meira, Gil Salgueiro Nave, Isabel Bilou, José Russo, Vítor Zambujo. Acompanhamento Musical: Gil Salgueiro Nave. Fotografias: Paulo Nuno Silva.

18 de Maio de 2021, Teatro Taborda, FIMFA Lx21

“Pela quinta vez no FIMFA, Senhoras e Senhores, os Bonecos de Santo Aleixo! Únicos no mundo, ingénuos, puros, malandros irreverentes… ninguém do público estará a salvo das suas piadas!” Eis aqui o convite para as tradicionais marionetas portuguesas, como anunciado no programa da 21ª edição do Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas: ótima descrição e pura verdade. Difícil manter-se ileso durante um encontro com aqueles pequenos títeres que se mantêm entre o ser e o não ser, em múltiplas esferas e sentidos. Naïf é um adjetivo que a eles se adequa, mas que se mostra insuficiente para defini-los. Estão, sim, imantados por uma aura de rusticidade, simplicidade, despretensão, naturalidade, ingenuidade e brejeirice que lhes emprestam contornos formais característicos e singulares. Mas isso não é tudo: naquela simplicidade reside complexa engenhosidade e rica exploração de artifícios diversos. Está lá uma delicadeza que suplanta qualquer laivo de grosseria que, porventura, possa emergir através de palavras ou ações, e a naturalidade mostra-se extremamente bem planeada. Entre malandros e irreverentes, daquele naipe a suposta ingenuidade esconde e revela mais do que possamos imaginar. E não podemos considerar despretensiosa a intenção de nos distrair, de nos fazer volver ao irreal e ultravital. Como bem disse o filósofo espanhol Ortega Y Gasset (1958, p. 56): “A distração, a diversão é algo consubstancial à vida humana, não é um acidente, não é algo que se possa prescindir”.

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Brincando com facas e bandeiras [Petites Fables]

Petites Fables. Criação, Encenação e Interpretação: Agnès Limbos, com a preciosa colaboração de Françoise Bloch. Apoio na construção da cenografia, adereços e técnica no início da criação: Guy Thèrache. Assistência técnica no início da criação: Antoine Clette. Apoio na construção de adereços – costura: Véronique Gihoul. Figurinos: Françoise Couplé. Fotografias: Alice Piemme, Guy Thérache. Técnico: Nicolas Thill.

Cie Gare Centrale  (BE)

12 de Maio de 2021, Teatro do Bairro, FIMFA Lx 2021

Todos os artistas têm um prazer infantil quando trabalham, eu creio. Por mais terrível, cruel ou amargo que seja o que criamos, tudo tem origem no prazer infantil da brincadeira

Ingmar Bergman

Como anfitriã da viagem que promoverá, vestida de preto, a enigmática mulher mantém o olhar atento nos espectadores. Ao seu lado há uma mesa sobre rodízios, encimada por um plástico branco amarrotado. Ao fundo, um dispositivo de cortinas pretas, acetinadas e também amassadas, atiça ainda mais a expectativa sobre aquilo que é posto à vista e sobre o que ainda virá. “Aqui está tudo bem. Mas ali… não sei. Mas, comigo, aqui, está tudo bem.”, ela diz, lançando assim a senha para a construção de sentidos com as imagens e situações que irão desfilar diante do público. Com isso deixa pairando no ar uma questão que bem poderia ser: “E com você, aí, está tudo bem?” Algo a se pensar cuidadosamente, antes de qualquer resposta, quando sabemos que as coisas não estão andando muito bem nesse mundo convulsivo em que vivemos.

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Ousar as profundezas [Moby Dick]

Encenação: Yngvild Aspeli Intérpretes e marionetistas: Sarah Lascar, Daniel Collados, Alice Chéné, Viktor Lukawski, Maja Kunsic, Andreu Martinez Costa Com a participação especial de: José Neves (ator do núcleo residente do TNDMII) Música: Guro Skumsnes Moe, Ane Marthe Sørlien Holen, Havard Skaset Marionetas: Polina Borisova, Yngvild Aspeli, Manon Leblanc, Sebastien Puech, Elise Nicod Dramaturgia: Pauline Thimonnier Cenografia: Elisabeth Holager Lund Figurinos: Benjamin Moreau Desenho de luz: Xavier Lescat, Vincent Loubière Som: Raphael Barani Vídeo: David Lejard-Ruffet Assistente de encenação: Pierre Tual Produção executiva: Claire Costa Administração Plexus Polaire: Anne-Laure Doucet, Gaedig Bonabesse Fotografias: Christophe Raynaud de Lage 

Cia. Plexus

4 de Maio de 2021, TNDMII – FIMFA Lx 2021

Alors, fous-moi la paix avec tes paysages. Parle-moi des sous-sols.

Samuel Beckett

O que acontece quando as marionetas contam histórias? Para Yngvild Aspeli, as marionetas e as matérias surgem como necessidade de comunicar, como possibilidade de discorrer narrativas multi-sensoriais. Nos espetáculos da Cia Plexus Polaire, as histórias são contadas na articulação de palavras, ambientes e sensações; na articulação de diferentes variantes discursivas que ressoam do confronto entre corpos de atores e corpos ficcionais, multiplicando as vozes enunciativas e os pontos de vista nos jogos de escalas. Tal como em Cendres e em Chambre Noir (espetáculos apresentados no FIMFA em 2017 e em 2019), em Moby Dick multiplicam-se as linguagens e a história é contada numa partilha de enunciação entre atores e marionetas (sete atores-manipuladores e cinquenta marionetas), mas também pela música (onde contamos com a orquestra submersa composta pela baixista Guro Skumsnes Moe, o guitarrista Havard Skaset e a percussionista Ane Marthe Sorlien Holen que recordamos do espetáculo Chambre Noir), pelas projeções de vídeo e pela conjugação de elementos visuais, cruzando diferentes versões e camadas de narração.

Chamai-me Ismael. Talvez alguns de vós esperassem, tal como eu, ouvir a narração de Ismael logo ao subir do pano de Moby Dick; lembrando as primeiras frases de Melville, a recordar a necessidade de os humanos partirem, atraídos para a água quando acossados pela melancolia. O súbito desejo de viagem que conduz os passos até ao mar. Mas é sobre as profundezas, mais do que sobre paisagens que nos fala esta versão de Moby Dick. Não silenciar os mortos é o primeiro apelo do espetáculo. Se as marionetas são desde a Antiguidade os interlocutores privilegiados para chegar ao mundo dos deuses e dos mortos, permanecem em palco esses seres de fronteira, corpos fictícios que enquanto duplos do corpo biológico têm a vocação de nos confrontar com a vertigem de um lugar entre dois mundos.

O esperado relato de Ismael chega um pouco depois e será essa narração um dos poucos momentos em que por instantes sentimos ir à tona, adiando a apneia seguinte. É também Ismael que nos fala do marinheiro Queequed que tomado por uma febre inabalável se preparou para morrer, mas que de súbito pede para ser transferido para a sua rede, lembrando que ainda tinha coisas a fazer em terra e que mudando de ideias declara: “Ainda não posso morrer. Se um homem decide viver não é uma simples doença que o vai matar. Nada o pode matar a não ser uma baleia ou uma brutalidade cósmica da natureza”. Ismael traz-nos novamente à tona falando da loucura de Ahab, a lembrar que há sabedoria na infelicidade, mas advertindo para aquela infelicidade que já é loucura.

Além de revisitar o texto de Melville, a história é contada com o apelo de completar pedaços de memória por preencher; Yngvild Aspeli concretiza com esta criação a ligação de pontes entre a memória e o imaginário, evocando a história do seu avô marinheiro: “O meu avô era marinheiro. Ele tinha uma mulher nua tatuada no braço e lembro-me do seu cheiro a peixe e sal, a alcatrão e tabaco. O meu avô veio de uma ilha na costa oeste da Noruega, um pequeno porto cheio de navios e línguas estrangeiras, pescadores, marinheiros e crianças à espera de pais que nunca voltaram do mar. Uma paisagem de vento e de mulheres de pé a observar o horizonte, rezando para o oceano trazer os seus homens para casa. Rostos desgastados e salgados, mãos calejadas e igrejas com barcos pendurados no teto, na esperança de proteção. Um cemitério tão árido e rochoso que, para poderem enterrar os mortos, tiveram de o encher com a terra que servia de lastro aos navios que vinham comprar o peixe seco e salgado. Os meus antepassados estão, portanto, enterrados com terra vinda de Portugal” [1].

No jogo entre corpos animados e fictícios, há um dado momento em que as marionetas representam os vivos e os atores representam a morte, as parcas que os levarão. O apelo para não silenciar os mortos é repetido, lembrando os corpos que jazem no mar sem sepultura. São corpos perdidos no mar, sem coordenadas, como a perda de coordenadas que atormenta o capitão Ahab, buscando rotas nos mapas, embriagado pela sua audácia e desejo de vingança. Em corpo de marioneta de grande escala Ahab procura rumos obstinado, até surgir como um náufrago suspenso; preso por fios, o corpo marionético é um corpo à deriva, prisioneiro das cordas do seu barco que o iça e o lança, ao ritmo da sua própria fúria. Ao longo do espetáculo, os corpos, as figuras e as matérias parecem transitar sem coordenadas e sem pontos de apoio, a não ser no abandono do abismo, no movimento do náufrago que se deixa descer, sem resistência.

Moby Dick convida então a esse mergulho ao abismo, recordando que Starbuck, primeiro imediato do capitão Ahab, dizia que ter medo era a primeira condição para entrar a bordo na tripulação do Pequod. Logo nos primeiros minutos do espetáculo, percebemos rapidamente que quem não entra com medo fica em terra. Da terra, imagino que seja possível ver outro espetáculo; não melhor nem pior, mas certamente diferente daquele que vivi.


[1] Ingvield Aspeli apud programa do espetáculo Moby Dick

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Catarina: teatro, sacrifício e ritual [Catarina ou a Beleza de Matar Fascistas]

Título: Catarina ou a Beleza de Matar Fascistas. Texto e encenação: Tiago Rodrigues. Cenografia: F. Ribeiro. Figurinos: José António Tenente. Desenho de luz: Nuno Meira. Sonoplastia e desenho de som: Pedro Costa. Coralidade e arranjos vocais: João Henriques. Apoio ao movimento: Sofia Dias e Vítor Roriz. Apoio em luta e armas: David Chan Cordeiro. Assistência de encenação: Margarida Bak Gordon. Interpretação: António Fonseca, Beatriz Maia, Isabel Abreu, Marco Mendonça, Pedro Gil, Romeu Costa, Rui M. Silva, Sara Barros Leitão. Voz off: Cláudio Castro, Nadiya Bocharova, Paula Mora e Pedro Moldão. Produção: Teatro Nacional D. Maria II, Wiener Festwochen, Emilia Romagna Teatro Fondazione, ThéâtredelaCité – CDN Toulouse Occitanie & Théâtre Garonne Scène européenne Toulouse, Festival d’Automne à Paris & Théâtre des Bouffes du Nord, Teatro di Roma – Teatro Nazionale, Hrvatsko Narodno Kazalište, Comédie de Caen, Théâtre de Liège, Maison de la Culture d’Amiens, BIT Teatergarasjen, Le Trident – Scène-nationale de Cherbourg-en-Cotentin, Teatre Lliure, Centro Cultural Vila Flor, O Espaço do Tempo.

Centro Cultural de Vila Flor (Grande Auditório), Guimarães, 19 de Setembro de 2020.

Thus it is no small wonder that Western cultures in the twentiethcentury were haunted by, if not obsessed with the idea of sacrifice.

Erika Fischer-Lichte, Theatre, Sacrifice, Ritual: Exploring Forms of Political Theatre (2005)

A confiar nos relatos que Riccardo Marchi foi fazendo nas redes sociais sobre a II Convenção Nacional do Partido Chega, realizada em Évora – e depois divulgadas pela generalidade da imprensa –, nesse certame político foram apresentadas pelos delegados presentes várias propostas de causar pasmo e alarme a qualquer democrata ou indivíduo de bom senso. O autor de A Nova Direita Anti-Sistema – O Caso do Chega (2020), presente na convenção como observador, relatou a apresentação de ideias como a proibição de partidos políticos de inspiração marxista ou uma moção que defende a remoção dos ovários a mulheres que interrompam voluntariamente a gravidez.

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À procura de horizonte [Uma coisa longínqua]

© Teatro de Ferro

Uma coisa longínqua. Direção artística: Igor Gandra. Música e dispositivo sonoro: Carlos Guedes. Co-realização e montagem: Carlota Gandra. Realização plástica e direção de montagem: Eduardo Mendes. Manipulação e interpretação: Carla Veloso, Igor Gandra, Carlota Gandra e Matilde Gandra. Fotografia de cena: Susana Neves. Oficina de construção e apoio à rodagem: Hernâni Miranda, Maria Rouco e Mário Gandra. Apoio: NYUAD’s Innovation Studio – Universidade de Nova York em Abu Dabi. Coprodução: Teatro de Ferro e Câmara Municipal do Porto – Programa Cultura em Expansão. Duração 50′.

15 de Outubro de 2020, Festival Internacional de Marionetas do Porto FIMP’20, Teatro do Campo Alegre

Olhamo-nos nos olhos pela internet. Eu transmito-te este domingo à tarde, a voz do vizinho através da parede. Tu transmites-me a distância que existe depois do que consigo ver pela janela. […] O futuro diz alguma coisa através da parede, mas não entendemos as palavras.

José Luís Peixoto, “Quarentena”. Regresso a casa

O espetáculo Uma coisa longínqua do Teatro de Ferro tem como ponto de partida uma narrativa que, em jeito de poesia épica ou parábola, imagina o desaparecimento de um grupo de obras de arte, que ganham vida própria, abandonando museus, galerias e plazas entre os grandes edifícios das poderosas empresas multinacionais e instituições financeiras globais para se reunirem no deserto.  A expedição em busca das obras de arte segue vertiginosamente por labirintos de espaços desertos e abissais, num enclausuramento progressivo, onde a busca pelas esculturas, nos remete à busca pelas últimas formas de existência.

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Chamava-se Catarina, sacrifício e ritual [Catarina ou Beleza de Matar Fascistas]

Fotografia de José Carlos Carvalho

Catarina ou a Beleza de Matar Fascistas. Texto e encenação: Tiago Rodrigues. Cenografia: F. Ribeiro. Figurinos: José António Tenente. Desenho de luz: Nuno Meira. Sonoplastia e desenho de som: Pedro Costa. Coralidade e arranjos vocais: João Henriques. Apoio ao movimento: Sofia Dias e Vítor Roriz. Apoio em luta e armas: David Chan Cordeiro. Assistência de encenação: Margarida Bak Gordon. Interpretação: António Fonseca, Beatriz Maia, Isabel Abreu, Marco Mendonça, Pedro Gil, Romeu Costa, Rui M. Silva, Sara Barros Leitão. Voz off: Cláudio Castro, Nadiya Bocharova, Paula Mora e Pedro Moldão. Produção: Teatro Nacional D. Maria II, Wiener Festwochen, Emilia Romagna Teatro Fondazione, ThéâtredelaCité – CDN Toulouse Occitanie & Théâtre Garonne Scène européenne Toulouse, Festival d’Automne à Paris & Théâtre des Bouffes du Nord, Teatro di Roma – Teatro Nazionale, Hrvatsko Narodno Kazalište, Comédie de Caen, Théâtre de Liège, Maison de la Culture d’Amiens, BIT Teatergarasjen, Le Trident – Scène-nationale de Cherbourg-en-Cotentin, Teatre Lliure, Centro Cultural Vila Flor, O Espaço do Tempo.

Centro Cultural de Vila Flor (Grande Auditório), Guimarães

19 de Setembro de 2020

A confiar nos relatos que Riccardo Marchi foi fazendo nas redes sociais sobre a II Convenção Nacional do Partido Chega, realizada em Évora, nesse certame político foram apresentadas pelos delegados presentes várias propostas de causar pasmo e alarme a qualquer democrata ou indivíduo de bom senso. O autor de A Nova Direita Anti-Sistema – O Caso do Chega (2020), presente na convenção como observador, relatou a apresentação de ideias como a proibição de partidos políticos de inspiração marxista ou uma moção que defende a remoção dos ovários a mulheres que abortem.

        Séries como Black Mirror já nos acostumaram à ideia de que aquilo que definirá o futuro próximo (tecnológica e epistemologicamente) já faz parte do nosso presente. Assim, quando em Catarina ou a Beleza de Matar Fascistas, escrito e encenado por Tiago Rodrigues, hoje, em 2020,se faz menção que num futuro não muito distante uma das leis aprovadas por um hipotético governo português de extrema-direita será a Lei da Decência na Internet ou a proibição da música, e tendo em conta as propostas (por ora, chumbadas) apresentadas na dita convenção realizada no mesmo fim de semana da estreia do espectáculo, apercebemo-nos que presente e futuro podem estar perigosamente justapostos. Apercebemo-nos que realidade e ficção podem estar perigosamente próximos. E, em rigor, assustamo-nos porque nem a invenção mais catastrofista e distópica de Rodrigues foi capaz de ir tão longe quanto as mentes dos deputados do dito partido na dita convenção.

        A acção dramática de Catarina ou a Beleza de Matar Fascistas é situada em 2028. Nessa altura, na distopia inventada pelo autor, um governo de extrema-direita terá sido eleito para governar Portugal. A narrativa está centrada numa família que tem uma bizarra tradição: uma vez por ano, reúnem-se numa propriedade familiar, no Alentejo, para matar um fascista. De acordo com a mitologia criada no espectáculo, esta tradição terá tido início com a morte do GNR que baleou Catarina Eufémia, em Baleizão, a 19 de Maio de 1954. Assim, este terá sido o primeiro fascista a ser morto – executado pela sua própria esposa, perante o olhar dos seus filhos. Daí em diante, e enquanto estiverem reunidos em família, todos os seus membros se chamarão “Catarina”, homens e mulheres, rapazes e raparigas, e todos se vestirão como uma ceifeira, homens e mulheres, rapazes e raparigas. Esta família de resistentes-carrascos-justiceiros tem, contudo, uma peculiar especialização no combate ao fascismo: só executam fascistas que tenham sido responsáveis, voluntária ou involuntariamente, por mortes de mulheres. É, pois, nessa condição, que um fascista se encontra ali feito refém. No mundo do fantástico criado pelo espectáculo, este fascista terá sido autor de discursos violentos, sexistas e misóginos, que terão inspirado mortes de mulheres.

   Tal como numa boa obra de ficção científica ou de literatura do fantástico, a corda que mede a distância entre o real e o possível é esticada até ao máximo das suas capacidades elásticas – sem chegar nunca a ser quebrada. (Não é, portanto, uma obra de terror – embora assuste, na mesma.) Não obstante a extravagância de todo este esquema narrativo do espectáculo, paira perene o manto da plausibilidade improvável, que a tudo confere uma dimensão de profecia pessimista.

    Poderíamos aludir às várias referências da literatura dramática universal que Tiago Rodrigues (et al.) coloca no espectáculo: do fantasma de Catarina Eufémia que vem reclamar vingança, como o do pai de Hamlet à situação tchekhoviana da família reunida no campo ou as citações literais de aforismos de Brecht, passando pela metáfora de considerar este curioso agregado familiar como um bando de andorinhas – que (me) lembra o mesmo jogo simbólico entre singularidade e fragilidade de A gaivota, de Tchekov, ou O pato selvagem, de Ibsen. Poderíamos. Mas é com a tragédia que Rodrigues está a dialogar.

   A Catarina… de Tiago Rodrigues tem as melhores características da tragédia. Assim, inspira o sacrifício individual, é dialéctica e não didáctica, discute qual o melhor destino para o colectivo e é insensível quanto à sorte dos seus heróis. E, importante, relembra a importância do ritual no estabelecimento e manutenção das comunidades humanas. Com efeito, tragédia e ritual são, pelo menos desde Nietzsche, indissociáveis. A potência reparadora da tragédia advirá dessa sua relação umbilical com o rito.

     Aquilo que Catarina… vem lembrar, de forma aguda, é precisamente que as sociedades modernas alienaram o rito e o ritual. Já não ritualizamos a nossa vivência. Substituímo-lo por outras formas de encontro. A potência catártica que a tragédia descobria no sacrifício ritual do herói foi trocada por outras formas de representação do mundo. Formas que representam conforto, segurança, ordem, progresso. Tudo valores que entraram, como parece, em falência.

Esta tímida reflexão encaminha-me para René Girard que, em Violence and the Sacred (1972), associa a excitação da tragédia à excitação do sacrifício necessário ao estabelecimento das comunidades. Para Girard, o rito sacrificial tinha uma função de manutenção da harmonia social. Quando uma crise social se instalava, passar-se-ia por quatro fases: na primeira, instala-se uma situação de violência recíproca entre todos os indíviduos da comunidade, prevalecendo o individualismo; de seguida, encontra-se um culpado para toda a violência; como resultado desta escolha, a comunidade, em conjunto, destrói o indivíduo considerado culpado; por último, pode-se instaurar-se, então, a harmonia. Os sacrífícios ritualizados servem, assim, como prevenção para os sacrifícios espontâneos e para a irrupção incontrolável da violência, servindo como libertação para as tensões endémicas de uma comunidade. Contudo, quando estes ritos falham, instala-se um estado de crise sacrificial. E é aí precisamente que estamos: num estado de crise sacrificial.

   O que o espectáculo Catarina vem lembrar é, pois, a necessidade vulcânica que temos em encontrar mecanismos de escape para as tensões sociais. A solução que esta macabra família encontrou é um regresso ao rito sacrificial. Mas, admitindo que o ritual ali proposto é uma solução criminalizada e duvidosa, que outras formas haverá? A que outras formas podemos ainda recorrer para a manutenção da harmonia social? Para a restauração da igualdade? Pode a violência ser produtora de harmonia? De justiça? São perguntas a que a história dos últimos cento e vinte anos foi respondendo de maneira muito variada. São perguntas sem respostas, nem claras nem fáceis. A coragem do espectáculo está também em atravessar todas estas questões com dialética, com vontade de discutir e de pensar. No fundo, a questão que permanece, ao abandonarmos a sala de espectáculo, é: para impedir que o futuro negro aqui profetizado se concretize, espectador, até onde serás capaz de ir?

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Viagem num Sofá [Viagem de Inverno]

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Viagem de Inverno de Elfriede Jelinek. Encenação: Nuno Carinhas; Intérpretes: Ana Cris, Flávia Gusmão, Teresa Gafeira; Tradução: António Sousa Ribeiro; Cenografia e figurinos: Nuno Carinhas; Desenho de luz: Nuno Meira. Companhia de Teatro de Almada.

 

Teatro Municipal Joaquim Benite, 25 de Janeiro de 2020

 

Bons atores conseguem fazer algo interessante e belo até de uma lista telefónica. Espécie de lista telefónica poética ou de bula de antidepressivo enumerando os efeitos adversos, o texto de Elfriede Jelinek curaria insónias a cocainómanos. Especialmente se recitado durante duas horas e vinte. O género de teatro de paisagens poéticas tem momentos lindíssimos quando em conjunção com outros momentos dramáticos como a introdução de um agon (conflito). Contudo, por si mesmo e forçado por extenso período não tem mais eficácia do que a imagem do Grand Canyon no screensaver de um computador. Não perde a beleza, mas a sua presença torna-se rotineira. Salvou-se deste pesadíssimo texto lírico quem tem realmente prazer com o trabalho de ator. Por aí houve muito por onde nos deleitarmos. As três atrizes deste espetáculo (Ana Cris, Flávia Gusmão e Teresa Gafeira) escolheram três métodos diferentes de entregarem as centenas de páginas de prosa poética decoradas: um teatro mais físico, um outro centrado nas expressões faciais e um de enfase no textual. O cenário ofereceu-se-nos demasiado simples para uma obra com tantas possibilidades de simbolismo. Duas mesas em L, algumas cadeiras, uma chaise-longue, três portas velhas, várias estantes de leitura e dois cavaletes. Atrás de um vidro surgiu uma pequena árvore desfolhada, como uma Yggdrasil que seca perdendo a sua vitalidade de axis mundi.

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Os Novos Peter Pans [A Golpada]

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A Golpada. A Golpada, de Dea Loher. Versão: João Lourenço, Vera San Payo de Lemos Dramaturgia: Vera San Payo de Lemos. Encenação e Cenário: João Lourenço. Direção Musical: Renato Júnior. Figurinos: Ana Paula Rocha. Vídeo: Nuno Neves. Interpretação: Ana Guiomar, Carlos Malvarez, Cristóvão Campos, Rui Melo, Tomás Alves. Músicos: Giordanno Barbieri, Mariana Rosa. Teatro Aberto.

 

25 de Julho de 2019, Teatro Aberto

Todas a gerações nascidas da sociedade de consumo têm tido um conjunto de obras que caracterizam os seus dilemas. A geração pós-guerra teve Saved e nós, os da geração X, tivemos Kids e Trainspotting. Muitas outras obras versaram sobre a revolta dos jovens adultos e o perigo do niilismo, umas apresentando modelos para uma crítica da sociedade, outras romantizando a alienação hedonista. Podemos incluir A Golpada num conjunto de obras que caracteriza a chamada geração Millennial. Tal como as suas predecessoras vem com uma romantização do niilismo aliada à crítica social. O que fazer para aproveitar essa imensa energia do espírito de revolta da nossa juventude? Isso, é claro, depende das opções disponíveis. E essas opções podem estar limitadas quando se é como os protagonistas desta peça, Jesus (Carlos Malvarez) e Maria (Ana Guiomar), filhos gémeos de um dealer e de uma alcoólica.

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Resignação e Complacência no IV Reich [Terror e Miséria]

image© Maria Antunes

Terror e Miséria, a partir de Terror e Miséria no III Reich de Bertolt Brecht. Encenação: António Pires. Interpretação:  Adriano Luz, Carolina Serrão, Francisco Vistas, Inês Castel-Branco, Jaime Baeta, João Barbosa, João Maria, Mário Sousa, Rafael Fonseca e Sandra Santos. Cenografia: Alexandre Oliveira. Iluminação: Rui Seabra. Figurinos: Luís Mesquita. Música: Nicholas McNair. Ar de Filmes/Teatro do Bairro.

 

12 de Julho de 2019, Palco Grande da Escola D. António da Costa, Almada

36º Festival de Almada

 

Assistido no dia em que o Twitter cancelou a conta de apoio a Assange, este espetáculo levanta algumas questões pertinentes sobre a atualidade. Portamos connosco instrumentos com microfones, câmeras e dispositivos de localização. Confiamos às redes sociais os aspetos íntimos do nosso quotidiano. Os antigos poderes não necessitam mais de nos controlar pela política da bota na face. Os bufos tornaram-se dispendiosos e ineficazes. E no país dito o mais livre do mundo, os centros de detenção de imigrantes estão agora a ser apelidados de “os novos campos de concentração”.

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FTA – Festival Transamérique (13 edition)

01_This-Time-Will-be-Different_cr_Adrian-Morillo-Photography_3This time will be different, Lara Kramer e Émilie Monnet

Há anos que ouço falar neste festival vibrante, em Montreal. Finalmente, tive a oportunidade de assistir a alguns espectáculos da edição deste ano. Inicialmente, um festival dedicado ao teatro produzido no continente americano (1985 – 2006, Theatre Festival of the Americas / Festival de Théâtre des Amériques), desde 2007 estendeu o espaço de apresentação à dança e abriu-se a outros continentes, passando a designar-se por FTA – Festival Transamérique / Transamerican Festival. Com o novo director artístico – Martin Faucher -, o festival prossegue o legado de Marie-Hélène Falcon, programando espectáculos de nomes consagrados lado a lado com espectáculos de artistas emergentes. Assim é o caso desta 13ª edição, que, entre muitos outros exemplos, apresenta o reconhecido encenador canadiano Denis Marleau (que já esteve no Festival de Almada com a original produção Les Aveugles), numa colaboração com Stephanie Jasmin, com a adaptação do romance de Marie-Claire Blais Soifs Matériaux lado a lado com o jovem performer iraniano sedeado em Paris Sorour Darabi com o espectáculo Savusun, em que as questões de género são centrais.

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