crítica

Os Novos Peter Pans [A Golpada]

golpada

A Golpada. A Golpada, de Dea Loher. Versão: João Lourenço, Vera San Payo de Lemos Dramaturgia: Vera San Payo de Lemos. Encenação e Cenário: João Lourenço. Direção Musical: Renato Júnior. Figurinos: Ana Paula Rocha. Vídeo: Nuno Neves. Interpretação: Ana Guiomar, Carlos Malvarez, Cristóvão Campos, Rui Melo, Tomás Alves. Músicos: Giordanno Barbieri, Mariana Rosa. Teatro Aberto.

 

25 de Julho de 2019, Teatro Aberto

Todas a gerações nascidas da sociedade de consumo têm tido um conjunto de obras que caracterizam os seus dilemas. A geração pós-guerra teve Saved e nós, os da geração X, tivemos Kids e Trainspotting. Muitas outras obras versaram sobre a revolta dos jovens adultos e o perigo do niilismo, umas apresentando modelos para uma crítica da sociedade, outras romantizando a alienação hedonista. Podemos incluir A Golpada num conjunto de obras que caracteriza a chamada geração Millennial. Tal como as suas predecessoras vem com uma romantização do niilismo aliada à crítica social. O que fazer para aproveitar essa imensa energia do espírito de revolta da nossa juventude? Isso, é claro, depende das opções disponíveis. E essas opções podem estar limitadas quando se é como os protagonistas desta peça, Jesus (Carlos Malvarez) e Maria (Ana Guiomar), filhos gémeos de um dealer e de uma alcoólica.

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crítica

Resignação e Complacência no IV Reich [Terror e Miséria]

image© Maria Antunes

Terror e Miséria, a partir de Terror e Miséria no III Reich de Bertolt Brecht. Encenação: António Pires. Interpretação:  Adriano Luz, Carolina Serrão, Francisco Vistas, Inês Castel-Branco, Jaime Baeta, João Barbosa, João Maria, Mário Sousa, Rafael Fonseca e Sandra Santos. Cenografia: Alexandre Oliveira. Iluminação: Rui Seabra. Figurinos: Luís Mesquita. Música: Nicholas McNair. Ar de Filmes/Teatro do Bairro.

 

12 de Julho de 2019, Palco Grande da Escola D. António da Costa, Almada

36º Festival de Almada

 

Assistido no dia em que o Twitter cancelou a conta de apoio a Assange, este espetáculo levanta algumas questões pertinentes sobre a atualidade. Portamos connosco instrumentos com microfones, câmeras e dispositivos de localização. Confiamos às redes sociais os aspetos íntimos do nosso quotidiano. Os antigos poderes não necessitam mais de nos controlar pela política da bota na face. Os bufos tornaram-se dispendiosos e ineficazes. E no país dito o mais livre do mundo, os centros de detenção de imigrantes estão agora a ser apelidados de “os novos campos de concentração”.

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FTA – Festival Transamérique (13 edition)

01_This-Time-Will-be-Different_cr_Adrian-Morillo-Photography_3This time will be different, Lara Kramer e Émilie Monnet

Há anos que ouço falar neste festival vibrante, em Montreal. Finalmente, tive a oportunidade de assistir a alguns espectáculos da edição deste ano. Inicialmente, um festival dedicado ao teatro produzido no continente americano (1985 – 2006, Theatre Festival of the Americas / Festival de Théâtre des Amériques), desde 2007 estendeu o espaço de apresentação à dança e abriu-se a outros continentes, passando a designar-se por FTA – Festival Transamérique / Transamerican Festival. Com o novo director artístico – Martin Faucher -, o festival prossegue o legado de Marie-Hélène Falcon, programando espectáculos de nomes consagrados lado a lado com espectáculos de artistas emergentes. Assim é o caso desta 13ª edição, que, entre muitos outros exemplos, apresenta o reconhecido encenador canadiano Denis Marleau (que já esteve no Festival de Almada com a original produção Les Aveugles), numa colaboração com Stephanie Jasmin, com a adaptação do romance de Marie-Claire Blais Soifs Matériaux lado a lado com o jovem performer iraniano sedeado em Paris Sorour Darabi com o espectáculo Savusun, em que as questões de género são centrais.

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Recuar os ponteiros dos relógios. Dar forma às memórias, manipular o tempo [Cosas que se olvidan facilmente]

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Criação e interpretação: Xavier Bobés. Coprodução: Festival TNT (Terrassa Noves Tendències) em cooperação com L’Animal a l’Esquena. Técnica: Teatro de objetos.

 

 12 de Maio 2019, Teatro da Trindade – Salão Nobre

FIMFA Lx19

Retrouve ta mémoire, retrouve ta mémoire… Ce qui est loin peut être proche.
Ce qui flétri reverdit. Ce qui est séparé se réunit. Ce qui n’est plus reviendra.
Ionesco, Amédée ou comment s’en débarrasser

 

Os colecionadores recolhem materiais evocadores de histórias. Os objetos ordenados por datas e categorias expõem imagens de tempos e lugares cristalizados, os símbolos que associamos a acontecimentos relevantes ou as figuras que se destacaram em diferentes momentos. Diante de uma coleção somos guiados por uma cronologia, um inventário de emblemas e souvenirs que nos convida a reescrever narrativas, conjugando memórias e ruínas, num exercício arqueológico.

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A quatro vozes [Aqueles dois]

teatro-ok-alan© Alan Soares

Aqueles Dois, a partir do conto homónimo de Caio Fernando Abreu. Encenação: Cláudio Dias, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves, Rômulo Braga, Zé Walter Albinati. Interpretação: Marcelo Souza e Silva, Cláudio Dias, Guilherme Théo e Odilon Esteves. Iluminação: Felipe Cosse e Juliano Coelho. Cia. Luna Lunera.

 

 22 de Março, Sala Principal do Pax Julia, Beja

FITA – Festival Internacional de Teatro do Alentejo

 

Tomando como ponto de partida o conto de Caio Fernando Abreu, este espectáculo aborda o preconceito social em torno da homossexualidade, através da história de Raul e Saul e do amor que, sorrateiro, se instala no âmago destes dois jovens funcionários de uma desumanizante repartição burocrática e se desenrola perante um público para quem a relação nunca chega a ser evidente. Quatro actores interpretaram os dois personagens, criando uma polifonia enriquecedora e dinâmica que proporcionou um interessante jogo de marcações e funcionou com a precisão de um relógio bem afinado.

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Viver tudo intensamente [Alma de Boleros]

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Alma de Boleros. Dramaturgia e encenação: Santiago Serrano. Interpretação: Pablo Tur. Produção: Sapo de Outro Pozo. Cenografia e iluminação: Sapo de Outro Pozo. M/16.

21 de Março, Sala-Estúdio do Pax Julia, Beja

FITA – Festival Internacional de Teatro do Alentejo

A segunda semana do Festival Internacional de Teatro do Alentejo, em Beja, iniciou-se com a produção de Sapo de Outro Pozo, Alma de Boleros. Este espectáculo argentino, com texto e encenação de Santiago Serrano, é um monólogo de tom intimista onde um actor nos convida para o seu 60º aniversário. Através de um texto inteligente e delicado, o público é transformado em interlocutor e confidente de fragmentos da vida do protagonista por meio do relato das suas paixões.

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Se Não Houvesse Corpo Não Haveria Pecado [A Casa de Bernarda Alba]

CasaDeBernardaAlba_24Sean O’Callaghan, Paula Liberati e Duarte Melo © Mário Campo Rainha

A casa de Bernarda Alba, Texto Original: Federico Garcia Lorca. Direção, Espaço Cénico e Texto: João Garcia Miguel. Interpretação: Sean O’Callaghan, Annette Naiman, Paula Liberati e Duarte Melo. Desenho de Luz: João Garcia Miguel. Figurinos: Rute Osório de Castro. Assistência de Encenação: Rita Costa e Eurico D’Orca.

Teatro Ibérico, 18 de outubro de 2018

As últimas criações de João Garcia Miguel têm partido da revisitação de vários clássicos, resultando num palimpsesto que procura adequá-los à atualidade. Os temas funcionam sobretudo como metáforas para as questões e preocupações deste criador, focados numa realidade emergente na qual valores humanos parecem ter sido erradicados da própria “humanidade”, mantendo uma linha narrativa focada na fábula original.

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