crítica

A dessacralização de um clássico [Otelo]

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Otelo, o Mouro de Veneza. Adaptação e Direcção: Jaime Lorca, Teresita Iacobelli e Christian Ortega. Intérpretes: Nicole Espinoza e Jaime Lorca. Assessoria Artística: Eduardo Jiménez. Música Original: Juan Salinas. Figurinos: Loreto monsalve. Desenho de Luz: Tito Velásquez. Sonoplastia: Gonzalo Aylwin. Fotografia: Rafael Arenas-Sandra Zea. Cartaz: Hugo Covarrubias. Produção: Viajeinmóvil.

Teatro Pax Julia – Sala-estúdio, Beja, 11 de Março de 2016

 3ª edição do FITA – Festival Internacional de Teatro do Alentejo

O penúltimo espectáculo apresentado em Beja, foi trazido do Chile pela companhia Viajeinmóvil. Esta versão de Othello reduz o drama ao núcleo de manipulação, intriga, ciúme e morte que gravita em torno das únicas cinco personagens que sobreviveram ao trabalho de adaptação levado a cabo por Jaime Lorca, Teresita Iacobelli e Christian Ortega (Cássio, Iago, Emília, Desdémona e Otelo). Esta obra, apresentada em Portugal pela primeira vez na temporada de 2014 do TNDMII, em parceria com o Programa Gulbenkian Próximo Futuro, foi o grande espectáculo da terceira edição do Festival Internacional de Teatro do Alentejo.

A iluminação do espaço cénico – aqui reduzido à intimidade de um quarto de casal – permitia ao público que entrava na sala-estúdio ver uma profusão de objectos que despertavam alguma curiosidade. Ao centro, uma cama com rodas, coberta por uma colcha dourada, cuja metade direita parecia estar ocupada por um corpo com um chapéu de Almirante, adereço utilizado em vários momentos para caracterizar Otelo. Várias cabeças de manequim distribuídas pelo palco podiam ser vistas, pousadas em suportes de colunas de som. À esquerda, uma cabeça feminina de manequim (Desdémona) e uma masculina (Cassio). À direita e ao fundo, um manequim feminino – sem cabeça ou membros – envolvido por um pano vermelho acetinado, em jeito de vestido sedutor. À frente deste manequim, uma cabeça masculina – a de Otelo – com uma estética próxima da escultura africana e radicalmente diferente das outras duas cabeças já referidas, que apresentavam os traços familiares dos manequins de borracha, próprios para suportar perucas. Pelo palco podiam também ser vistos pés e pernas de plástico, normalmente encontrados em lojas de meias, que foram utilizados pelos intérpretes para dar vida à esposa de Otelo. Surgiu, também, a determinada altura, o lenço de Desdémona, imprescindível à trama shakespeareana, e um cobertor vermelho, utilizado para marcar o ponto de viragem na conduta do Almirante, quando este se deixa apanhar pela pérfida teia de Iago e a dúvida e o ódio se instalam no seu ânimo.

O espectáculo arranca com uma iluminação fraca e uma voz-off – alertando-nos para a intemporalidade de temas como o amor, o ódio, a inveja e o rancor – vinda de uma televisão ausente, sugerida pela luz lateral e pela interpretação, já que os actores fixaram a sua atenção no aparelho imaginário. Este recurso marca o desenrolar da acção e remete o espectador para o universo da ficção televisiva latino-americana, aspecto que aligeira a dimensão deste clássico. Para além desta incursão pela cultura popular, a opção de levar a cabo esta tragédia com uma linguagem mais actual e corrente reforçou o esforço transversal de dessacralização da obra.

Os dois intérpretes dão vida a várias personagens, construindo uma espécie de marionetas com partes de manequins e figurinos contemporâneos pendurados em cabides. Para além do manuseamento das marionetas, os actores também representam. Apenas duas personagens não ganham vida por meio da manipulação: Jaime Lorca é Iago e Nicole Espinoza é Emília. Tal como no enredo, Cássio – personagem residual e meramente acessória no desenrolar da intriga –, Otelo e Desdémona são manipulados e Iago e Emília (ao compactuar com o marido) manipulam.

Esta versão chilena de Othello cinge-se aos dois casais, o que, por um lado, retira alguma da complexidade do original shakespeareano, mas, por outro, permite que o foco do espectáculo se concentre na falta de carácter e desonestidade de Iago e na questão da violência doméstica, presente no relacionamento entre Otelo e Desdémona. Do original mantiveram a dicotomia no tratamento da figura feminina. Desdémona é submissa e frágil, obedece ao marido e procura sempre desculpá-lo, nunca vendo a sua conduta como reprovável. Já Emília é diferente, não apenas porque desafia o marido ao desmascará-lo como arquitecto da tragédia, mas também pelas posições assumidas ao longo do espectáculo em diálogo com Desdémona, que demonstram uma falta de ingenuidade e uma astúcia que esta última não possui.

A adaptação foca-se apenas em algumas cenas do texto original desenvolvidas com maior atenção: os momentos de manipulação de Iago, e os diálogos entre Otelo e Desdémona, que acompanham a mudança no seu relacionamento à medida que aumenta a desconfiança e a crueldade no seio do casal. Assistimos à crescente agressividade de Otelo para com a sua mulher, que culmina nas cenas de violência: o assassinato de Desdémona e o esfaqueamento de Iago, quando Emília desmascara o seu marido, confessando ter roubado o lenço que incriminou a esposa do almirante.

Apesar das reduzidas dimensões da sala e da proximidade da plateia em relação ao palco, este espectáculo é tecnicamente irrepreensível. Tudo quanto é necessário para levá-lo a bom porto foi feito com grande precisão e mestria. É uma criação muito bem coordenada, desde a representação – cuja qualidade é partilhada por ambos os intérpretes – ao manuseamento dos manequins e às vozes que caracterizam cada personagem, passando pelo trabalho de som e de luz. A manipulação é tão precisa que o facto de serem, por vezes, apenas cabeças numa mão, corpos retalhados feitos de troncos de manequins, ou uma cabeça e um figurino num cabide, não afecta minimamente a eficácia e capacidade de envolvimento e de comunicação do espectáculo. Ambos os intérpretes deram provas de grande versatilidade, realizando, de forma bastante competente, alguns momentos musicais que reforçavam ou comentavam a acção.

O espectáculo termina como começa. Ouve-se uma voz-off vinda do televisor imaginário, que interrompe, aparentemente, o suicídio de Otelo, presente no texto seiscentista. Os actores abandonam todos os objectos e permanecem apenas atentos às palavras que surgem do aparelho: o público é convidado a julgar os personagens e as suas acções e a reflectir sobre as questões fulcrais da história do mouro de Veneza.

A escolha da incursão pelo teatro de marionetas reduz o impacto das cenas de violência, facilitando o distanciamento que permite a desejada reflexão crítica anunciada no fim do espectáculo. Assim, este Otelo é uma versão alternativa de um clássico que, embora recorra à simplificação do enredo e da linguagem e ao universo popular das telenovelas, em nada vê diminuída a sua qualidade, cumprindo o propósito de evocação do texto shakespeareano e aproximação ao público contemporâneo.

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