crítica

As três irmãs [The House by the Lake]

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The House by the Lake. Texto e encenação: Yael Rasooly, Yaara Goldring. Co-autoria: Edna Blilious, Rinat Sterenberg. Interpretação: Maya Kindler, Michal Vaknin, Yael Rasooly. Cenografia e figurinos: Maureen Freedman. Concepção de marionetas e objectos: Maayan Resnick, assistida por Noa Abend. Compositor e autor das letras: Nadav Wiesel. Desenho de som: Binya Reches. Desenho de Luz: Asi Gottesman. Assistente de encenação: Michal Vaknin. Consultoria artística: Yael Inbar. Fotografias: Nir Shaanani. Produção: Hazira Performance Art Arena (Israel). Apoio à apresentação: Embaixada de Israel em Portugal. Técnica: Marionetas e objectos. Idioma: Inglês. Público-alvo: +12. Duração: 60 min.

 

FIMFA – Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas

Palco da sala principal, São Luiz Teatro Municipal

21 de Maio de 2016

 

O palco do São Luíz Teatro Municipal acolheu, nos dias 20 e 21 de Maio de 2016, a criação israelita The House by the Lake – de Yael Rasooly e Yaara Goldring – estreada em Setembro de 2010, no Acco Festival of Alternative Israeli Theater, que o premiou nas categorias de melhor cenografia, figurinos, luz e construção de marionetas e adereços. Foi com este espectáculo, uma promessa (cumprida) de grande qualidade técnica que o Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas encerrou a sua 16. ª edição. The House by the Lake explora a delicada questão do holocausto, e da sua repercussão na vida de inúmeras crianças judias, através da história de três pequenas irmãs cuja infância foi interrompida pelo terror do terceiro reich e da sua tentativa de salvação levada a cabo pela mãe que as esconde no sótão da casa de família.

O dispositivo cénico sobre o qual todo o espectáculo foi representado resultou da fusão estética entre um estrado de um cabaret do início do século XX e o sótão de uma casa. Este palco, cujas dimensões reduzidas deram o mote de clausura que atravessa todo o espectáculo, revelou-se uma caixinha de surpresas que as actrizes foram abrindo ao longo de uma hora, revelando elementos transformadores do cenário essenciais ao desenrolar da narrativa. Com a abertura dos alçapões do palco nasceram jardins que floresciam com a chegada da primavera e construíram uma cama onde sonhavam, descansavam e contavam histórias umas às outras, fantasiando com cavaleiros encantados e experienciando o medo nocturno típico da sua idade. À boca de cena alinhava-se uma fileira de lâmpadas, em jeito de ribalta, interrompida por três degraus, replicados numa das laterais da estrutura cénica composta por ripas corridas de madeira negligenciada. Ao fundo e à direita, podíamos ver apenas uma porta esconsa que evidenciava a reclusão das três irmãs que, após um prólogo musical, entraram em cena para ocuparem três pequenas cadeiras de madeira carregando cada uma a sua boneca.

Este prólogo musical, evocativo de Kurt Weill, foi-nos oferecido por uma mestre-de-cerimónias interpretada por Yael Rasooly (na qual se reconhece a influência de Liza Minelli), que deu as boas-vindas ao público em várias línguas – francês, alemão e hebraico – utilizadas de forma pontual ao longo do espectáculo, maioritariamente representado em inglês. Momentos musicais como este, de clara influência brechtiana, em que a acção é comentada ou apresentada sempre num registo de cabaret, atravessaram todo o espectáculo. Feito o acolhimento e as devidas apresentações, a mestre-de-cerimónias deu lugar à irmã do meio (Yael Rasooly) e a narrativa das três irmãs (Michal Vaknin encarna a irmã mais nova e Maya Kindler a irmã mais velha) inicia-se com o fecho da porta, momento que assinala o começo da clausura destas crianças.

É neste pequeno espaço que elas dão continuidade à sua rotina diária, alheadas da realidade exterior, dedicando-se à aprendizagem de várias línguas, à música, à etiqueta social e ao ballet. Confinadas àquele pequeno quarto, as irmãs, protegidas por uma inconsciência inocente perante a realidade que devastou a Europa durante a II Grande Guerra, aguardam pacientemente o regresso da mãe e agarram-se tanto ao que lhes é familiar como ao pouco alimento que têm para subsistir. Apenas os breves, mas traumatizantes, contactos com o mundo exterior, feitos através da janela do sótão – representada por uma moldura que as actrizes seguram – e da já referida porta, começam a corroer a inocência e a esperança destas meninas.

Os dias repetem-se iguais à medida que as estações do ano vão passando, mas pelo meio há brincadeiras e momentos de humor – as aulas de ballet, por exemplo, reminiscentes de slapstick comedy – aos quais não conseguimos não responder com riso. Contudo, estes momentos de descontracção são abruptamente cortados quando o público é confrontado com o tema do espectáculo, como o momento em que as flores amarelas colhidas pelas crianças se transformam em estrelas de David que passam a ter de carregar ao peito. O espectador acaba, assim, a experienciar recorrentemente o desconforto do riso perante um tema tão pesado e que foi habilmente trabalhado, quer pela encenação, quer pela capacidade de representação e manipulação de marionetas e adereços por parte do elenco.

As bonecas que acompanharam as três irmãs desde o momento em que entraram em palco eram réplicas das actrizes. Os figurinos, uns vestidos brancos de menina, à primeira vista muito femininos e delicados, embora se transformassem facilmente em trajes burlescos e reveladores do corpo, eram comuns às marionetas. Cada uma destas bonecas-marioneta tinha por cara uma fiel reprodução das faces das três actrizes, embora transformadas em bonecas antigas, como as que podemos encontrar no Hospital das Bonecas, na Praça da Figueira. As actrizes foram manipulando e desconstruindo as suas versões em miniatura ao longo do espectáculo, acabando por usar o seu próprio corpo para as complementar dando origem a uma fusão entre actriz e marioneta que esbateu os limites entre corpo humano e marioneta. A manipulação de objectos foi também um elemento importante na construção da narrativa, uma vez que várias personagens foram criadas com recurso a adereços – luvas, botas e chapéus –, como o soldado que invade o sótão e leva duas das três irmãs.

The House by the Lake é um espectáculo tecnicamente irrepreensível, em que tudo conflui harmoniosamente para a construção do produto final. A capacidade de expressão e de manipulação de marionetas e objectos das actrizes é louvável, bem como a interacção entre elas. Elementos como a luz e o som, perfeitamente coordenados entre si e com a representação, assumem um papel importante na construção de ambientes e da narrativa, uma vez que é através deles que o mundo exterior se vai manifestando até invadir fisicamente o espaço em que as irmãs foram encerradas. The House by the Lake é, também, uma tentativa de processar a pesada herança do holocausto, levada a cabo por artistas de uma geração que, embora não o tenha experienciado directamente, sempre conviveu com as lembranças de familiares que o viveram em primeira mão. Apesar de se centrar na história de três irmãs judias numa época de perseguição ao seu povo, este espectáculo abre a porta a uma reflexão mais ampla. Uma reflexão sobre o impacto dos conflitos bélicos na vida das crianças que os vivem, sendo difícil não encontrar um paralelo em muitas situações que são hoje, infelizmente, realidade em territórios como a Síria, o Iraque, o Yémen ou a Palestina, entre tantos outros.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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