crítica

Prima Donna [Alla Prima]

cadete-net

Alla Prima. Criação e interpretação: Tiago Cadete. Consultor de História de Arte: Raphael Fonseca. Figurinos: Carlota Lagido. Assistente de Projecto: Bernardo Almeida. Director Técnico: Nuno Patinho. Colaboradores voz-off: Priscila Maia, Raphael Fonseca, Raquel André, Sueli Do Sacramento, Jonas Arrabal, Victor Dias, Laura Arbex, Felipe Abdala, Isabel Martins, Julia Arbex, Breno de Faria, Leandra Espírito Santo e Daniela Seixas. Fotos de documentação: Victor Dias. Fotografia de Cena: José Carlos Duarte e Luís Martins. Assessoria de imprensa: Mafalda Simões. Teaser: Francisca Marvão e Tiago Cadete. Residência: Centro Coreográfico do Rio de Janeiro. Acolhimentos: Escola De Mulheres, ZDB/Negócio, Mala Voadora/Porto co-produção Temps d’images ’15.

 

Rua das Gaivotas 6, 29 de Julho de 2016

“Alla Prima” é um termo das artes plásticas que designa uma técnica utilizada na pintura, em que novas camadas de tinta são aplicadas sobre as anteriores, antes que as primeiras tenham secado. Desta técnica faz parte a rapidez de execução do pintor, que fixa a imagem que pinta rapidamente, resgatando para a tela mais a impressão geral do assunto que está a ser pintado, do que os pormenores do mesmo.

Alla Prima é o título dado por Tiago Cadete ao espectáculo estreado em Dezembro do ano passado, recentemente reposto na Rua das Gaivotas, e que se apresenta fiel ao conceito homónimo das artes plásticas. Tiago Cadete aplica-o na sua performance ao desenvolver um vocabulário coreográfico a partir da construção de imagens sobre imagens, cujo resultado é um espectáculo tematicamente denso e intimamente relacionado com o percurso artístico e as experiências de vida do performer.

Entra-se na sala da Rua das Gaivotas, um espaço mais ou menos convencional, dividido entre o lugar do espectáculo e a plateia. Vê-se um grande telão branco do lado direito e a instalação de um aparato luminotécnico do lado esquerdo da cena. Ao centro, um quadrado branco sobre o solo. Surge Tiago Cadete, apresenta-se com um sorriso subtil. Despe-se totalmente, de um modo mais ou menos displicente, e centra-se sobre o quadrado branco, totalmente nu. A relação que a performance, desde logo, estabelece com a nudez e com o contexto brasileiro que ensaia destitui de qualquer pudor o impacto do espectador com o corpo nu do performer. O corpo nu é, desde logo, experimentado enquanto morfologia e motor de significantes e significados que esboçam o pensamento de Tiago Cadete sobre a expressão cultural do Brasil, mais especificamente sobre o corpo brasileiro ao longo da História daquele país.

A iluminação concentra-se sobretudo no quadrado branco, onde temos o performer. No telão lê-se: “O mundo começou sem o Homem e terminará sem ele”. A temática do espectáculo é lançada desde então: Alla Prima desenvolve um discurso sobre o Brasil, desde o tempo da colonização portuguesa entre o século XVI e XIX, até aos mais recentes eventos relacionados com os Jogos Olímpicos.

Num primeiro momento ouvimos várias vozes. Cada narrador (ausente) descreve imagens que não vemos. A partir da sugestão da descrição de figuras humanas o performer traduz, com o seu corpo, a ideia de um outro corpo que cada voz off concede. As descrições que se ouvem falam de ameríndios, cuja nudez faz parte da cultura e da expressão do povo autóctone brasileiro. O “corpo seminu”, o corpo “totalmente nu pintado de vermelho”, a “praia”, “índios ou pessoas nuas sentadas”, “um escravo que está apanhando” são descrições que instauram o cenário de Alla Prima, que apenas vislumbramos no corpo de Tiago Cadete, que cria traduções tão literais quanto possíveis das ideias de nudez expressas pelas vozes.

O discurso é ouvido em português do Brasil e em português de Portugal, o que denuncia desde logo a origem, as motivações e inspirações de Alla Prima: o performer interpreta descrições do Novo Mundo. No quadrado branco, o performer nu metaforiza a escravidão, a subjugação cultural, o corpo feminino e masculino e, sobretudo, evidencia o modo como a nudez brasileira está condicionada pela cultura portuguesa que lhe foi imposta. De facto, se ao europeu não fosse tão estranho e exótico a naturalidade com que alguns povos ameríndios se apresentam sem roupas decerto não haveria tanto discurso, descrição, preocupação e estudo sobre a expressão da nudez.

Não poucas vezes se ouve a correcção, por parte dos oradores, das descrições das imagens que estão a analisar. Por vezes as imagens não são claras, causam dúvidas (“É um homem, não! É uma mulher!”) e isso manifesta-se nos discursos que ouvimos sobre as mesmas. Os descritores hesitam, o performer aproveita as hesitações dos narradores para reinventar a sua interpretação sobre o que é dito. Ao mesmo tempo que a voz off altera a sua exposição, que se esforça por ser mais acertada, Tiago Cadete faz as ligeiras mudanças que se adequam mais à descrição do corpo em que a narração detém a sua atenção.

Da experiência auditiva, a coreografia passa para o confronto entre imagens: a imagem que nos é conferida pelo corpo do intérprete passa a competir com imagens que vão surgindo projectadas no ecrã. A selecção de imagens que habitam o telão branco variam entre ilustrações, quadros, pinturas e fotografias do povo indígena e do quotidiano brasileiro, desde os antepassados até aos mais recentes acontecimentos. Em Alla Prima chegamos mesmo a ser surpreendidos com a presença de imagens dos últimos dias que desafiam o performer na sua tradução, como por exemplo, imagens que se relacionam com eventos dos Jogos Olímpicos que irão acontecer em breve no Brasil. Alla Prima parece assim reger-se pela contemporaneidade absoluta, absorvendo em si a expressão do corpo brasileiro a todo o instante como mote actualizado para o exercício cénico que experimenta.

A luz que incide sobre o performer cria sombras no corpo nu de Tiago Cadete. Assim, o mesmo corpo que fixa, em breves segundos, o resultado físico da percepção auditiva da descrição metamorfoseia-se de um modo inesperado através dos efeitos de luz que criam volumetrias e dimensões que não lhe pertencem. A luminotécnica aplicada no espectáculo confere densidade ao exercício antropológico e morfológico de que Alla Prima é feito. O exercício torna-se mais interessante quando existem várias figuras humanas numa mesma imagem e nos detemos na procura do corpo escolhido pelo intérprete na composição que executa. Enquanto público, vemo-nos perante a possibilidade da comparação entre a tradução física de Tiago Cadete e o corpo que origina a sua fisicalidade naquele momento. Numa imagem em que as personagens são diversas, o espectador é desafiado a encontrar, pela sugestão do corpo do performer, qual a figura da projecção que mimetiza. O espectador vê-se consequentemente a jurar a fidelidade com que se parecem um e outro corpo, o vivo e o estático. Os momentos ganham mais quanto mais arriscada e menos óbvia é a escolha do corpo a ser traduzido.

Ao longo da progressão de Alla Prima, a qualidade coreográfica vai adensando a ligação entre momentos de mimetização das imagens projectadas. Os gestos e as morfologias dos corpos imitados são transformados num vocabulário estético de uma coreografia suis generis. As imagens passam a ser a inspiração para uma série de movimentos, uma reunião de formas e narrativas que manifestam uma estética do corpo e uma estética de pensamento, absolutamente estilizados de modo original, com o cunho autoral de Tiago Cadete bastante forte.

O espectáculo encerra com a revelação do processo de construção da coreografia desse dia: no fim, assiste-se à filmagem das relações estabelecidas entre o performer, as descrições e as imagens, ao mesmo tempo que o próprio Tiago Cadete se confronta, nesse momento, com os resultados produzidos a partir dos inputs auditivos e visuais que o motivaram.

Sendo um português a viver, desde há três anos, no Brasil, da migração do nosso país para aquele resultaram as matérias que Tiago Cadete nos apresenta neste espectáculo sobre a ideia de corpo e de identidade brasileira. Alla prima é um discurso cénico em que experiencia o seu corpo de um modo engajado politica e culturalmente com o país que adoptou como sua nova casa. Alla Prima é sobretudo um exercício de exposição de intimidade(s): da nudez em geral, da nudez do performer em particular, e da sua experiência específica, implicada na sua vivência pessoal, no modo como ele, Tiago Cadete, se relaciona com a História e a cultura do povo brasileiro. Sem se expor abusiva ou gratuitamente, a poética do solo sobre o Brasil despido utiliza o corpo como discurso político e a sua nudez como expressão da iconografia que o europeu criou, aquando da (sua) invenção do Brasil.

Alla Prima conflui numa coreografia autónoma na qual se verifica a experiência do corpo em relação com um contexto específico e uma experiência particular. A fluidez dos gestos experimentados ao longo de todo o exercício compõem um discurso na primeira pessoa, sem palavras, que fala para além da dança e da fisicalidade. Este espectáculo experimenta num corpo português uma História do corpo e da nudez que está intrinsecamente relacionada com a expressão do corpo brasileiro, desde o ameríndio até ao sambista.

Estamos perante um espectáculo saudavelmente egocentrado, que revela de forma eficaz as preocupações e o pensamento social, cultural e antropológico de um performer que, pela sua própria experiência de vida, se viu a pensar sobre um povo e uma cultura que não são as suas de origem mas que têm uma relação umbilical com Portugal. Uma das maiores consequências do cruzamento da cultura europeia com a cultura brasileira é a passagem da nudez de regra para excepção. Nas palavras de Giorgio Agamben, “a nudez pressupõe a ausência de vestes, mas não coincide com ela” (Nudez). O português levou consigo para o Brasil o pudor e as roupas para o cobrir. O nu de Tiago Cadete não é só artístico, é uma exposição da nudez que sustém o problema da natureza humana na sua relação com a raça.

A composição do solista impõe-nos, de certo modo, a reflexão sobre o modo como nos relacionamos com os outros e connosco, como povo e como indivíduo. Na experiência que dela podemos ter, “a nudez é sempre desnudamento e pôr a nu” (Giorgio Agamben, Nudez). Estamos irremediavelmente condicionados por uma herança cultural que nos veste desde sempre. Concentrando-se sobretudo na temática do corpo nu subjugado, o discurso cénico de Tiago Cadete faz foco sobre os resultados dos dinamismos perniciosos que se estabelecem entre culturas e sobre a (ir)responsabilidade de um pai português que, agora ausente, foi demasiadamente impositivo, ditador e intolerante. Citando Giorgio Agamben, em Nudez, não só a raça, mas o próprio homem é feito do que (não) veste, é o modo como se apresenta perante si e perante os outros que determina quão subordinados estamos aos paradigmas civilizacionais que nos definem.

Disfarçado de artes cénicas, Alla Prima é mais uma lição a dar a Portugal do que um elogio ao Brasil. Disfarçado de performance, Alla Prima é um pedido de desculpas de um artista (que, chegando ao Novo Mundo, não se consegue dissociar do olhar do outro, que é ele) associado a um exercício de estética ao serviço do egocentrismo artístico do autor. Alla Prima de Tiago Cadete é fiel à definição de Prima Donna, e ainda bem.

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