crítica

Matrioskas de papel a atarantar [Este não é o nariz de Gogol, mas podia ser…com um toque de Jacques Prévert]

gogol

Este não é o nariz de Gogol, mas podia ser…com um toque de Jacques Prévert, de A Tarumba – Teatro de Marionetas. Direcção artística, construção e actores-manipuladores: Luís Vieira e Rute Ribeiro Adaptação e textos: Rute Ribeiro Produção executiva: Daniela Matos Fotografias: Alípio Padilha Apoios e parcerias: Câmara Municipal de Lisboa, EGEAC Estrutura Financiada por: República Portuguesa – Ministério da Cultura / DGArtes Técnica: Figuras de papel e objectos Idioma: Português Público-alvo: +8 Duração: 40 min.

Livraria Ferin, 16 de Maio, 21h

FIMFA Lx 17

Se Tarumba significa atarantar é sobretudo pelo riso irreverente e libertador que nos ajuda a despertar e a reparar por onde andamos, guiados por uma panóplia de figuras onde o nonsense e o real se misturam. Misturar parece ser aliás a divisa desta criação da Tarumba, numa manta de retalhos que joga com as formas, combinando cabeças com troncos alheios e pernas que não pertenciam a esses corpos. Combinar matérias e pensar em novas maneiras de articular e representar o corpo faz parte do caminho das suas vidas de marionetistas. Desse gosto por cadavres exquis resultou uma colagem de Gogol com Jacques Prévert, entre outras personagens que se combinam e articulam umas com as outras, em figuras de papel que se vão transformando, revelando novas formas de representação, como matrioskas que se abrem para descobrir quem mais se esconde ali.

Somos acolhidos num ambiente de festa, onde reina a paródia e o kitsch, com um velho gira-discos, uma mesa com uma televisão antiga resguardada por naperons e ornamentada por cãezinhos que abanam as cabeças. Os anfitriões, com as suas cabeleiras louras, dão-nos as boas vindas em russo, vestidos a rigor para a noite de mascarade e excentricidade que se adivinha, não esquecendo de distribuir notas em lenços de papel, pois é também de dinheiro, poder e loucura que vamos falar aqui. Estranhar e rir são formas de atarantar e de nos acordar, para nos lembrarmos do quanto se baralha e se confunde o que é insólito e o que é real.

Na vida das marionetas, não estranhamos um nariz que abandona o rosto e decide ter vida própria, como no conto de Gogol. Rimos desse nariz que saiu de Gogol para se instalar no corpo de uma figura do Porto Sandeman e que é trazido à mesa ao lado de uma Marine Le Pen transformada em tartaruga, uma Theresa May que transita num T Rex, um Putin que agora é zebra com corpo de Schwarzenegger e pernas do humorista Borat, surgindo em seguida num coração bicéfalo com Donald Trump. Com humor e poesia surge Jacques Prévert para nos salvar destas criaturas monstruosas, acompanhado de Camões, Juliette Gréco, Yves Montand, Serge Gainsbourg e Iggy Pop, baralhando as identidades e os lugares e evocando tempos em que houve rasgos de maior rebeldia e poesia. Prévert que nos ensinava a rir do mundo surreal, a trocar as voltas ao poder, virando as palavras do avesso. Prévert que nos ensinava a não parar de rir, amar e sonhar neste mundo louco: «Un homme écrit à la machine une lettre d’amour et la machine répond à l’homme et à la main et à la place de la destinataire. Elle est tellement perfectionnée la machine à laver les chèques et les lettres d’amour. Et dans sa machine à rêver avec sa machine à calcule il achète une machine à faire l’amour. Et la machine le trompe avec un machin, un machin à mourir de rire».

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