crítica

Movidos pelo vento [L’Après-Midi d’un Foehn – version 1]

Phia Ménard-Cie Non Nova 2©Jean-Luc Beaujault

L’Après-Midi d’un Foehn – version 1, Phia Ménard – Cie Non Nova. Direcção artística, coreografia e cenografia: Phia Ménard Assistida por: Jean-Luc Beaujault Interpretação: Jean-Louis Ouvrard Composição sonora: Ivan Roussel, a partir da obra de Claude Debussy Direcção Técnica: Olivier Gicquiaud Concepção de marionetas: Phia Ménard, com construção de Claire Rigaud Operação de som: Mateo Provost Co-directora, administração e difusão: Claire Massonnet Produção: Clarisse MérotComunicação: Adrien Poulard Fotografias: Jean-Luc Beaujault Apoios: Institut Français, Fondation BNP Paribas. A Compagnie Non Nova é convencionada pelo Ministère de la Culture et de la Communication – DRAC des Pays de la Loire, Conseil Régional des Pays de la Loire, Conseil Général de Loire-Atlantique, Ville de Nantes. A companhia está sediada em Nantes. A Compagnie Non Nova / Phia Ménard é artista associada ao Espace Malraux / Scène Nationale de Chambéry et de la Savoie, ao Théâtre Nouvelle Génération – Centre Dramatique National de Lyon e ao Centre chorégraphique national de Caen, Normandia Técnica: Manipulação de matérias Idioma: Sem palavras Público-Alvo: +5 Duração: 25 min. Apoio à apresentação: Institut Français du Portugal, em parceria com o Institut Français em Paris, no âmbito do foco sobre a criação contemporânea francesa em 2017

São Luiz Teatro Municipal – Sala Mário Viegas, 21 de Maio

FIMFA ’17 – Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas

 

O sopro do vento era ardente como se a casa estivesse no meio de um braseiro. Está amanhecendo e o sol está longe, tem brisa na campina, cascata, orvalho gelado deslizando na corola, chuva fina no meu cabelo, a montanha e o vento, todos os ventos soprando. Os ventos.

Lygia Fagundes Telles

O vento Föhn é um fenómeno que ocorre quando o vento passa por uma região montanhosa em alturas de condensação e precipitação no topo da montanha. O vento eleva-se absorvendo o vapor da água, descendo a encosta da montanha mais seco e mais quente. L’après-midi d’un Foehn apresenta-nos um ballet de sacos de plástico inspirado nas diferentes versões de L’après-midi d’un Faune, a primeira em poema por Mallarmé com ilustrações de Manet, que motivou uma escultura de Gauguin oferecida ao poeta, o prelúdio de Debussy e o bailado de Nijinsky com o mesmo título. No espetáculo de Phia Ménard o fauno é substituído pelo vento Föhn, sendo o primeiro trabalho que a artista nomeou na trilogia “Peças do vento”, um projeto de criação sobre elementos primordiais e os seus modos de transformação da matéria. O vento sucede a um conjunto de espetáculos dedicados ao gelo, seguindo-se posteriormente o ciclo de “Peças da água e do vapor”. Nesta trilogia do vento, as matérias passam a ganhar vida através do elemento mais associado à nossa condição vital: o ar, o sopro, a respiração.

A história desta criação começa em 2008 quando Phia Ménard trabalhava numa instalação sobre o movimento para o Museu de História Natural de Nantes. Nesse trabalho compreendeu que o que mais a perturbava no espaço do museu era a falta de correntes de ar. Movida por esse apelo do vento, instalou uma série de ventoinhas na galeria da evolução das espécies e um dia um saco de plástico cor-de-rosa começou a circular à volta dos animais empalhados. Assim nasceu a vontade de criar uma coreografia para sacos de plásticos.

Esta criação foi ainda estimulada por um estudo levado a cabo pela Universidade Ludwig-Maximilians em Munique, onde se relacionou a interação do vento Föhn nos comportamentos humanos. L’après-midi d’un Foehn teve então como ponto de partida uma pesquisa sobre o modo como o ar e o vento influenciam os nossos humores, modificam o nosso quotidiano e agem sobre as nossas vidas, transformando as matérias, os movimentos do corpo e os estados de alma.

Uma personagem misteriosa inspirada no Homem Invisível de Herbert Georges Wells atravessa a pequena pista de palco, onde os espetadores são acolhidos em círculo, juntamente com oito ventoinhas. Um saco de plástico cor-de-rosa, uma tesoura e fita cola são os elementos manuseados pela personagem para construir uma figura humana que ganha vida movida pelo ar que sai das ventoinhas. Outros sacos de plástico transformados em figuras humanas de diferentes cores se juntarão a este ballet aéreo ao som de três peças de Debussy: « L’après-midi d’un faune », « Nocturnes » e « Dialogue de la Mer et du Vent ». Sem nunca tocar nas matérias animadas que constrói, o marionetista conduz o seu movimento a partir das direções que os bailarinos de plástico vão seguindo, ao sabor do vento. Uma coreografia de objetos que rodopiam suspensos no ar, desafiando as leis da gravidade e os limites do nosso imaginário.

Questionar a posição do ser humano face aos elementos, sublinhando a impossibilidade de os controlar e manipular são algumas das coordenadas que suscitaram a curiosidade de Phia Ménard neste espetáculo. Invisível e impalpável, o ar surge como veículo de manipulação da matéria que se anima, sem a intervenção do marionetista, também ele corpo movido pelo vento em interação com os corpos fictícios. Num crescendo, os bailarinos de plástico vão evocando outras figuras do ar: nuvens, pássaros, folhas, entre outras imagens esculpidas pelo vento. Marionetas que flutuam num  pleno de poesia e metamorfose, inspirando-nos um dos sonhos mais antigos dos mortais: o sonho do voo ligado ao desejo de leveza, suspensão e liberdade.

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