crítica

Os cavalos também se abatem [A vertigem dos animais antes do abate]

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© Jorge Gonçalves

A vertigem dos animais antes do abate de Dimítris Dimitriádis; Encenação: Jorge Silva Melo; Tradução: José António Costa Ideias; Com: João Meireles, Inês Pereira, Américo Silva, Vânia Rodrigues, André Loubet, Pedro Baptista, Pedro Carraca, João Pedro Mamede e Nuno Gonçalo Rodrigues; Cenografia e Figurinos: Rita Lopes Alves; Luz: Pedro Domingos: Assistência de Encenação: Nuno Gonçalo Rodrigues e Isabel Muñoz Cardoso.

Teatro da Politécnica, 13 de setembro de 2017

 

Numa época em que o crime organizado, a violência crua e gratuita, os padrões da sexualidade alterados e o consumismo invadem o nosso quotidiano, cabe, também, ao teatro revisitar e desenvolver categorias dramatúrgicas que os mais incautos poderiam considerar mortas.

A tragédia grega, cujo clímax se dava quando o/a protagonista tomava consciência do acontecimento que, de modo irreversível, tinha lugar, por vezes prenunciado por um oráculo, mas sempre comentado por um coro, encontra no texto de Dimitriádis, um renascimento inquietante por nos apresentar a impossibilidade de controlarmos a nossa “sorte”.

Dois amigos veem a sua relação alterada quando um deles anuncia que se vai casar, deixando o outro, com quem tem uma relação íntima, em estado de agonia. Este último acaba por prever (o oráculo) uma série de vicissitudes que irão ter lugar no seio daquela família. Irão ter filhos e a desgraça irá cair sobre o lar: incestos entre pai e filha, mãe e filho, irmão e irmã, irmão e irmão, homicídios, suicídios e prisões irão suceder-se numa ordem precisa.

Paralelamente, três homens vão comentando e tecendo considerações sobre o modo como as coisas acontecem ou podem acontecer (o coro). A determinado momento, subitamente, a casa da família, já quando os filhos estão crescidos, altera-se para uma luxuosa mansão. Aqui começam a ter lugar os acontecimentos previstos. Com o luxo vem a luxúria e com esta a perversão de valores. Todos morrem, sendo a morte do pai de família, perpetrada pelos mesmos homens que se deslocam do coro para o papel de criminosos (antagonistas).

Jorge Silva Melo é exímio na operação de textos sobre lutas de classes, sacralizando-os sempre. A sua abordagem deste tema/texto confirma a sua profunda e constante atenção ao que se passa no mundo e no teatro, bem como nas outras artes. Para além do uso de uma linguagem corporal que nos transporta para uma imagética pictórica na qual, em alguns momentos, somos transportados para a pintura sacra, aumentando a verve de todo o espetáculo, Silva Melo faz a divisão de espaços, sobretudo, com a luz de Pedro Domingos. O espaço da Politécnica não deixa de ser usado de modo convencional, mas o que nos transporta para a dimensão dos espaços representados reside na escolha estética de Jorge Silva Melo de usar a fórmula dos dípticos e trípticos para nos envolver na narrativa a que a sua encenação dá visibilidade.

Há uma coesão de registo entre todo o elenco que não permite (nem torna permeável a) qualquer distanciamento porque todos os atores produzem comportamento com uma organicidade e uma autenticidade – cruciais para este texto – que fazem com que este espetáculo seja um teatro mais próximo de nós.

O guarda-roupa é de uma qualidade sensual apelativa – como faz sentido para este texto – e o cenário é minimalista transformando cada elemento (sofá, armário, mesa, etc.) num signo erótico.

Se há espetáculo, no tecido teatral atual de Portugal, que vai além da indústria da performance e se traduz num nutriente para os sentidos, para além de devolver à tragédia o seu lugar no seio da cultura teatral, é esta produção dos Artistas Unidos.

 

     Bruno Schiappa

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