crítica

A brisa deixa a sua marca e o hábito faz o monge [Sopro]

Sopro©Filipe Ferreira
Isabel Abreu, Cristina Vidal, Sofia Dias, Beatriz Brás, Vítor Roriz e João Pedro Vaz © Filipe Ferreira

 

Sopro de Tiago Rodrigues; Encenação: Tiago Rodrigues; Com: Beatriz Brás, Cristina Vidal, Isabel Abreu, João Pedro Vaz, Sofia Dias e Vítor Roriz; Cenografia e Desenho de Luz: Thomas Walgrave; Figurinos: Aldina Jesus; Sonoplastia: Pedro Costa; Assistência de Encenação: Catarina Rôlo Salgueiro

Teatro Nacional D. Maria II, 2 de novembro de 2017

 

Não é habitual a Arte debruçar-se sobre os seus procedimentos. Essa tarefa cabe, regra geral, aos investigadores e estudiosos. É certo que, no que diz respeito ao teatro, há muito que nos habituámos a ver espetáculos ou a ler textos onde este se revela um pouco. Desde William Shakespeare, que coloca nos discursos de Hamlet questões sobre o trabalho do ator, até Pirandello que, ora coloca as personagens à procura de um autor, ora coloca os atores a improvisarem, passando por Molière que apresenta um improviso com pré-forma. No entanto, mesmo esses casos de metateatro não se debruçam sobre categorias profissionais que não as dos atores, encenadores e dramaturgos. Pelo menos desconheço que exista qualquer outro texto/espetáculo que fale do cenário ou do ponto.

É exatamente neste ponto que reside a genialidade da ideia de Tiago Rodrigues para este espetáculo que, de acordo com o próprio, remonta a 2010. Tendo partido de uma vontade de escrever para atores, a profissão de Cristina Vidal – ponto há 39 anos – deu o mote para o enquadramento necessário e eficaz sobre o trabalho do ator mas, também, para as várias circunstâncias que rodeiam e intervêm na criação de um espetáculo de teatro.

A fábula começa exatamente por contar que, devido à impossibilidade de estrear a peça que estava programada, ter havido a necessidade de criar um espetáculo alternativo. O diretor do teatro decide convencer o ponto a partilhar as suas histórias num espetáculo, assumindo a função de ator. Enquanto atrizes de idades diferentes representam momentos distintos na vida daquela figura que sopra o texto aos atores nos momentos em que a memória falha, outros atores representam alguns dos momentos mais marcantes – para o ponto – de produções daquele teatro, dando corpo e voz a profissionais que por ali passaram. São, assim, apresentadas situações, ora hilariantes, ora dramáticas, que ao longo dos tempos preencheram a vida profissional do ponto.

A partir daqui, o que pretendia ser um modus operandi específico, tornou-se num espetáculo que ultrapassa em grande escala a homenagem a uma parte integrante e incontornável do teatro, tão bem defendida por Cristina Vidal, para se transformar, também, numa forma fascinante de destapar uma pequena parte do véu que envolve os bastidores de um determinado teatro – o mais clássico no modo de operar – tornando claro o que muitos manuais falham quando tentam revelar os “bastidores” do teatro.

Através das situações representadas o espetáculo ganha a condição de retrato contribuindo para documentar, em pequenas doses, a História do Teatro.

Ao longo dos 100 minutos de duração, somos nutridos por toda uma equação sensitiva enquanto a narração assumida vai sendo partilhada.

O cenário de Thomas Walgrave – que também assina o desenho de luz –, é singelo e minimalista o suficiente para, apesar de presente, não desviar a atenção do texto e da performance. Podemos dizer que cumpre a sua função de ser sublime e integrado na exposição de algo efémero, mas que deixa a sua marca, como a brisa: o espetáculo.

A encenação de Tiago Rodrigues é irrepreensível porque se destina a cumprir o texto e a performance dos atores que se dirigem aos espectadores. Os atores dirigem-se diretamente aos espectadores e, a chamada “quarta parede”, apenas surge no momento em que uma elegante e talentosíssima Isabel Abreu e o polivalente João Pedro Vaz produzem um comportamento tripartido e intimista: os atores que fazem de diretora/atriz e ator que, por sua vez, ensaiam personagens de Tchekov usando como estímulo uma situação real (ficcionada) do diagnóstico e prognóstico, dados por um médico à diretora do teatro.

Todo o elenco resulta de modo harmonioso, sem dissonâncias que desequilibrem o tom do espetáculo. E todos têm um elemento de valorização. Já referi os desempenhos meticulosos e fenoménicos de Isabel Abreu e João Pedro Vaz; Sofia Dias tem, para além de uma presença e voz que enchem o palco, um timbre belíssimo; Vítor Roriz é encantador na sua composição de diretor do teatro e consegue tornar uma fisicalidade construída numa fisicalidade tão orgânica que parece pertencer-lhe desde sempre; Beatriz Brás, na sua jovialidade, tem o condão de nos transportar para a fantasia de uma possível memória de Cristina Vidal quando era miúda. Por último, mas com vénias de excelência, não posso deixar de referir que, Cristina Vidal, representando-se a si própria no exercício da sua profissão, domina o palco enchendo-o de modo pleno e imprimindo eficazmente a presença do ponto. Neste sentido, podemos dizer que, de tanto observar os atores e “soprar-lhes” o texto, Cristina Vidal se tornou um deles. Tal como o hábito faz o monge.

Uma última menção para a pérola que sai da ostra que é este espetáculo: o texto de Tiago Rodrigues, que já nos tinha brindado com a sua pena na trilogia “tragédias”, e que é assombrosamente belo e inteligente. Um texto que, para além da narrativa em si e da poesia que o próprio consegue conferir – e que já tinha visto luz, por exemplo, no monólogo de Cassandra em Agamémnon –, imprime, subtilmente, um retrato dos profissionais de espetáculo, enquanto pessoas, e dá conselhos práticos como, por exemplo, “a discrição do ponto deve ser diretamente proporcional à indiscrição dos atores”.

Não posso deixar de terminar esta análise de modo mais subjetivo e dizer que o espetáculo “toca tantas cordas” que dei comigo a rir, a chorar, a rejubilar, enfim, todos os meus sentidos foram alimentados.

Uma produção feliz e que resulta em felicidade.

 

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One thought on “A brisa deixa a sua marca e o hábito faz o monge [Sopro]

  1. stattmiller diz:

    O calcanhar de Aquiles deste espectáculo prende-se precisamente com o tal “tocar de cordas” que alimenta todos os sentidos: Sopro faz “rir”, “chorar” e “rejubilar” de modo absolutamente orquestrado e impositivo, manifestando-se como uma máquina teatral que promove a manipulação das emoções. Tal facto não é prejudicial à excelência do espectáculo, mas antes revela o poder da persuasão teatral, afinado e eficaz na produção das emoções que pretende alcançar com as cenas que propõe.

    Outra qualidade da encenação prende-se com o forjar e fabricar da História do Teatro Nacional: a narrativa cerze, de tal forma, factos verdadeiros com a mentira dramática, que faz com que o público tome como documental matéria que é apenas verossimilhança, imaginada e produzida pelo encenador/dramaturgo. A dramaturgia deste exercício cénico investe de modo coerente e suasório no impossível verosímil de Aristóteles, necessário e desejável ao evoluir da intriga.

    Este espectáculo de Tiago Rodrigues é a melhor forma de se ter um Sopro no coração: todos os sons extra dos batimentos cardíacos são provocados pela (boa) perversidade que o elenco e o encenador experimentam sobre o palco, que levamos connosco para fora do teatro, na memória soprada que se guarda no peito.

    Statt Miller

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