crítica

Catarina: teatro, sacrifício e ritual [Catarina ou a Beleza de Matar Fascistas]

Título: Catarina ou a Beleza de Matar Fascistas. Texto e encenação: Tiago Rodrigues. Cenografia: F. Ribeiro. Figurinos: José António Tenente. Desenho de luz: Nuno Meira. Sonoplastia e desenho de som: Pedro Costa. Coralidade e arranjos vocais: João Henriques. Apoio ao movimento: Sofia Dias e Vítor Roriz. Apoio em luta e armas: David Chan Cordeiro. Assistência de encenação: Margarida Bak Gordon. Interpretação: António Fonseca, Beatriz Maia, Isabel Abreu, Marco Mendonça, Pedro Gil, Romeu Costa, Rui M. Silva, Sara Barros Leitão. Voz off: Cláudio Castro, Nadiya Bocharova, Paula Mora e Pedro Moldão. Produção: Teatro Nacional D. Maria II, Wiener Festwochen, Emilia Romagna Teatro Fondazione, ThéâtredelaCité – CDN Toulouse Occitanie & Théâtre Garonne Scène européenne Toulouse, Festival d’Automne à Paris & Théâtre des Bouffes du Nord, Teatro di Roma – Teatro Nazionale, Hrvatsko Narodno Kazalište, Comédie de Caen, Théâtre de Liège, Maison de la Culture d’Amiens, BIT Teatergarasjen, Le Trident – Scène-nationale de Cherbourg-en-Cotentin, Teatre Lliure, Centro Cultural Vila Flor, O Espaço do Tempo.

Centro Cultural de Vila Flor (Grande Auditório), Guimarães, 19 de Setembro de 2020.

Thus it is no small wonder that Western cultures in the twentiethcentury were haunted by, if not obsessed with the idea of sacrifice.

Erika Fischer-Lichte, Theatre, Sacrifice, Ritual: Exploring Forms of Political Theatre (2005)

A confiar nos relatos que Riccardo Marchi foi fazendo nas redes sociais sobre a II Convenção Nacional do Partido Chega, realizada em Évora – e depois divulgadas pela generalidade da imprensa –, nesse certame político foram apresentadas pelos delegados presentes várias propostas de causar pasmo e alarme a qualquer democrata ou indivíduo de bom senso. O autor de A Nova Direita Anti-Sistema – O Caso do Chega (2020), presente na convenção como observador, relatou a apresentação de ideias como a proibição de partidos políticos de inspiração marxista ou uma moção que defende a remoção dos ovários a mulheres que interrompam voluntariamente a gravidez.

            Séries como Black Mirror já nos acostumaram à ideia de que aquilo que definirá o futuro próximo (tecnológica e epistemologicamente) já faz parte do nosso presente. Nunca ficção científica e realismo nos pareceram tão contíguos. Assim, quando em Catarina ou a Beleza de Matar Fascistas, escrito e encenado por Tiago Rodrigues, hoje, em 2020,se faz menção a que num futuro não muito distante uma das leis aprovadas por um hipotético governo português de extrema-direita será a Lei da Decência na Internet ou a proibição da música (entre outras que imaginamos nas entrelinhas da peça), e tendo em conta as propostas (por ora, chumbadas) apresentadas na dita convenção realizada no mesmo fim-de-semana da estreia do espectáculo, apercebemo-nos que presente e futuro podem estar perigosamente justapostos. Apercebemo-nos que realidade e ficção podem estar perigosamente próximos. E, na verdade, assustamo-nos porque nem a invenção mais catastrofista e distópica de Rodrigues foi capaz de ir tão longe quanto as mentes dos delegados do dito partido na dita convenção.

            A acção dramática de Catarina ou a Beleza de Matar Fascistas é situada em 2028. Nessa altura, na distopia política inventada pelo autor, um governo de extrema-direita terá sido eleito para governar Portugal. A narrativa do espectáculo tem como protagonistas uma família que tem uma bizarra tradição: uma vez por ano, todos os seus membros abandonam as suas vidas individuais e reúnem-se numa propriedade familiar, no Alentejo, com o propósito de matar um fascista. De acordo com a macabra “mitologia” criada pelo espectáculo, esta tradição terá tido início com o assassinato do GNR que baleou fatalmente a trabalhadora agrícola, de vinte e seis anos, Catarina Eufémia, em Baleizão, a 19 de Maio de 1954, na sequência de altercações durante uma greve de assalariadas rurais. Assim, o assassino de Catarina Eufémia terá sido o primeiro fascista a ser morto – executado pela sua própria esposa, perante o olhar dos seus filhos. Daí em diante, e enquanto estiverem reunidos em família, todos os seus membros se chamarão “Catarina”, homens e mulheres, rapazes e raparigas, e todos se vestirão como uma ceifeira, homens e mulheres, rapazes e raparigas (magníficos figurinos de José António Tenente); e, no momento em que cada um completar os seus vinte e seis anos de idade, cada um matará o seu primeiro fascista. Esta família de resistentes-carrascos-justiceiros (António Fonseca, Beatriz Maia, Isabel Abreu, Marco Mendonça, Pedro Gil, Rui M. Silva e Sara Barros Leitão) tem, contudo, uma peculiar especialização no combate ao fascismo: só executam fascistas que tenham sido responsáveis, voluntária ou involuntariamente, por mortes de mulheres. É, pois, nessa condição, que um fascista (figurado pelo actor Romeu Costa) se encontra ali feito refém. No mundo de imaginário fantástico que o espectáculo convoca, este fascista terá sido autor de discursos violentos, sexistas e misóginos, que terão inspirado (ou poderão ter inspirado) várias mortes e/ou actos violentos contra mulheres.

            Tal como numa boa obra de ficção científica ou de literatura do fantástico, a corda que mede a distância entre o real e o verossímil é esticada até ao máximo das suas capacidades elásticas – sem chegar nunca a ser quebrada. (Não é, portanto, uma obra de terror – embora assuste, na mesma.) Não obstante a extravagância de todo o esquema narrativo do espectáculo, paira perene o manto da plausibilidade improvável, que a tudo confere uma dimensão de profecia pessimista.

            Poderíamos aludir às várias referências da literatura dramática universal que Tiago Rodrigues (et al.) coloca no espectáculo: do hamletiano fantasma de Catarina Eufémia que vem reclamar vingança à situação tchekhoviana da família reunida no camp ou às citações literais de aforismos de Brecht, passando pela metáfora de considerar este curioso agregado familiar como um bando de andorinhas – que (me) lembra o mesmo jogo simbólico entre singularidade e fragilidade de A gaivota, de Tchekov, ou O pato selvagem, de Ibsen. Poderíamos. Poderíamos também evocar o diálogo que o poderoso cenário de F. Ribeiro estabelece com os dispositivos brechtianos (fundamentais para se entender o jogo entre verdade e artifício no final do espectáculo…) Mas é com a tragédia que Rodrigues está a dialogar.

            A Catarina… de Tiago Rodrigues tem as melhores características da tragédia. Inspira o sacrifício individual, é dialéctica e não didáctica, discute qual o melhor destino para o colectivo e é insensível quanto à sorte dos seus heróis. Além disso, a sua jornada fatal – o dia em que uma das “Catarinas” mais novas chega para matar o seu primeiro fascista – inspira uma das discussões que mais largamente atravessa toda a história do teatro (e da tragédia), da Antiguidade aos nossos dias: qual o papel da violência, na arte e no mundo? E qual a responsabilidade do artista em fazer representar a violência? Assim, discutindo-se se se deve ou não matar o fascista, se a violência deve ser perpetuada ou não, se há justiça na violência ou não… metonimicamente, discute-se também o papel e a responsabilidade do teatro em tudo isto. Neste aspecto, o agon entre mãe (Isabel Abreu) e filha (Sara Barros Leitão), na escrita e na interpretação, é simplesmente de antologia.

Mas, mais importante, creio, a tragédia de Tiago Rodrigues relembra a importância do ritual no estabelecimento e na manutenção das comunidades humanas. Com efeito, tragédia e ritual são, pelo menos desde Nietzsche, indissociáveis. A potência reparadora da tragédia advirá dessa sua relação umbilical com o rito e com o seu siamês, o sacrifício. E assim é com este espectáculo.

No relevante trabalho da teatróloga alemã Erika Fischer-Lichte, Theatre, Sacrifice, Ritual: Exploring Forms of Political Theatre (2005), um estudo dedicado ao tópico do sacrifício na teoria e no teatro ao longo do século XX, visa-se “reflectir sobre o papel e significado atribuído ao topos do sacrifício na cultura ocidental do século vinte tal como é espelhado em espectáculos de artes performativas que fundem teatro e ritual no sentido de lidar com o problema da construção de comunidades em sociedades caracterizadas pela perda de laços de solidariedade e desintegração”, tendo no centro “a relação provocadora entre as utópicas visões de comunidade que esses espectáculos concebem e tentam criar e a ideia de sacrifício”. (2005: viii, tradução minha). É nesta linhagem que este espectáculo se inscreve (e daria um óptimo posfácio para o livro de Fischer-Lichte…).

Aquilo que Catarina… vem lembrar, de forma aguda, é precisamente que as sociedades modernas alienaram o rito e o ritual. Substituímo-los por outras formas de encontro. A potência catártica que a tragédia descobria no sacrifício ritual do herói foi trocada por outras formas de representação do mundo. Formas que representam conforto, segurança, ordem, progresso. Tudo valores que entraram, como parece, em falência.

            Esta tímida reflexão encaminha-me para René Girard que, em La Violence et le sacré (1972), associa a agitação da tragédia à excitação do sacrifício necessário ao estabelecimento das comunidades. Para Girard, o rito sacrificial tinha uma função de manutenção da harmonia social. Quando uma crise social se instalava, passar-se-ia por quatro fases: na primeira, instalar-se-ia uma situação de violência recíproca entre todos os indíviduos da comunidade, prevalecendo o individualismo; de seguida, encontrar-se-ia um culpado para toda a violência; como resultado desta escolha, a comunidade, em conjunto, destruiria o indivíduo considerado culpado; por último, poder-se-ia instaurar, então, a harmonia. Os sacrífícios ritualizados serviriam, assim, como prevenção para os sacrifícios espontâneos e para a irrupção incontrolável da violência na sociedade, servindo como libertação para as tensões endémicas de uma comunidade. Contudo, quando estes ritos falham, instala-se um estado de crise sacrificial. E é aí precisamente que estamos: num estado de crise sacrificial.

            O que o espectáculo Catarina… vem lembrar é, pois, a necessidade vulcânica que temos em encontrar mecanismos de escape para as tensões sociais. A solução que esta macabra família encontrou é um regresso ao rito, transformando o refém fascista numa vítima sacrificial. A sua morte abriria a possibilidade de uma restauração social, de uma nova era de justiça. Ou não. E é aí que o espectáculo se ergue em grandeza. Não toma partido, não faz panfleto, evita todos os simplismos argumentativos. Não oferece respostas. Pelo contrário, acresenta perguntas ao tempos já complicados que vamos vivendo: admitindo que o ritual ali proposto é uma solução criminalizada e duvidosa, que outras formas haverá de procurar justiça? A que outras formas podemos ainda recorrer para a manutenção da harmonia social, para a restauração da igualdade? Pode a violência ser produtora de harmonia? De justiça?

São perguntas a que a história dos últimos cento e vinte anos foi respondendo de maneira muito variada. São perguntas sem respostas, nem claras nem fáceis. A coragem do espectáculo está também aí, na capacidade de atravessar todas estas questões com dialética, com vontade de discutir e de pensar, deixando para trás um lastro de dúvidas e debates. No final do espectáculo, depois de tudo, depois de todo o pó assentar, no fundo, a questão que permanece, ao abandonarmos a sala de espectáculos, regressando ao mundo, é: agora, para impedir que o futuro negro aqui profetizado se concretize, espectador, até onde serás capaz de ir? Até onde?

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