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Entre o ser e o não ser dos Bonecos de Santo Aleixo [Auto da Criação do Mundo]

Auto da Criação do Mundo. Atores manipuladores: Ana Meira, Gil Salgueiro Nave, Isabel Bilou, José Russo, Vítor Zambujo. Acompanhamento Musical: Gil Salgueiro Nave. Fotografias: Paulo Nuno Silva.

18 de Maio de 2021, Teatro Taborda, FIMFA Lx21

“Pela quinta vez no FIMFA, Senhoras e Senhores, os Bonecos de Santo Aleixo! Únicos no mundo, ingénuos, puros, malandros irreverentes… ninguém do público estará a salvo das suas piadas!” Eis aqui o convite para as tradicionais marionetas portuguesas, como anunciado no programa da 21ª edição do Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas: ótima descrição e pura verdade. Difícil manter-se ileso durante um encontro com aqueles pequenos títeres que se mantêm entre o ser e o não ser, em múltiplas esferas e sentidos. Naïf é um adjetivo que a eles se adequa, mas que se mostra insuficiente para defini-los. Estão, sim, imantados por uma aura de rusticidade, simplicidade, despretensão, naturalidade, ingenuidade e brejeirice que lhes emprestam contornos formais característicos e singulares. Mas isso não é tudo: naquela simplicidade reside complexa engenhosidade e rica exploração de artifícios diversos. Está lá uma delicadeza que suplanta qualquer laivo de grosseria que, porventura, possa emergir através de palavras ou ações, e a naturalidade mostra-se extremamente bem planeada. Entre malandros e irreverentes, daquele naipe a suposta ingenuidade esconde e revela mais do que possamos imaginar. E não podemos considerar despretensiosa a intenção de nos distrair, de nos fazer volver ao irreal e ultravital. Como bem disse o filósofo espanhol Ortega Y Gasset (1958, p. 56): “A distração, a diversão é algo consubstancial à vida humana, não é um acidente, não é algo que se possa prescindir”.

A curiosidade se inflama e acende o desejo de assistir o Auto da Criação do Mundo em alguma pequena localidade do Alentejo, como ocorria no passado. Em um espaço exíguo, diverso de uma casa de espetáculos, completamente ocupado por espectadores locais, a solicitar aos artistas a realização de passagens dramáticas, entregues a uma relação ainda mais intimista e afogueada com a cena. Nómadas que são, esses bonecos realmente únicos e sedentos de abrir fronteiras, já viajaram o mundo, chegando a públicos bem distantes do seu local de origem. Sediados em Évora, eles são os anfitriões da Bienal Internacional de Marionetas de Évora que, em sua 15ª edição, ocorre entre 1 e 6 de junho deste ano de 2021.

A escolha do FIMFA pelo Teatro Taborda, na Costa do Castelo, em Lisboa, para abrigar a apresentação do espetáculo, foi mais que acertada, garantindo ambiente propício para a manutenção da chama da comunhão que se estabelece, quase que ritualisticamente, entre os envolvidos naquela celebração à vida. A dimensão reduzida do espaço em muito favorece a interação do público com bonecos de proporções também diminutas.  A edificação assentada sobre estruturas, que remontam ao século XVI, mantém a constituição graciosa e acolhedora dos pequenos teatros de bolso do Século XIX. Ocorreu ali um confronto da rusticidade do retábulo tradicional, o dispositivo cénico envolto em chita florida e que abriga os mistérios das figuras animadas, com o aparato técnico deliberadamente não utilizado do teatro dito sofisticado, em sua brancura, pinceladas de dourado e verniz de histórica erudição. Um teatro fincado no tablado de outro teatro, num jogo de conter e estar contido como uma metáfora visual capaz de ilustrar a histórica nutrição das artes da cena moderna e contemporânea por formas espetaculares de origem popular e tradicional.  

Quando as luzes se apagam e a música preenche o ambiente tem início a recriação do mundo.  Espectadores das mais diferentes idades são transportados para outros tempos e lugares. Em cena, o pequeno vai se agigantando e, como é próprio da arte das marionetas, ocorre o fenómeno descrito por Samuel Taylor Coleridge (apud CARLSON, 1997, p 214) como “suspensão voluntária da incredulidade”. Uma cortina pardacenta desvela os cenários pintados em cores vivas sobre cartões conversíveis e o encantamento se dá através de uma representação avessa ao realismo, porém alimentando algum ilusionismo.  Cordões dispostos na boca de cena, em duas ordens, embaralham os olhos do público, ao se confundirem com as hastes que seguram os bonecos na vertical. Eles parecem ter vida própria, a despeito de todas as suas limitações morfológicas. Ocorrem aparições e desaparições, como as da figura divina no episódio de criação, anjos rodopiam no céu, em efeito quase mágico. Tudo iluminado pela chama bruxuleante de uma simples lamparina de azeite.

A narrativa episódica que sucede remete à tradição cómica de alguns autos medievais, afeita à carnavalização e composições alegóricas, ao burlesco e ao fantasioso. Como num espetáculo de variedades, comandado pelos apresentadores Mestre Salas e Padre Chanca, números de canto e dança intercalam algumas cenas dramáticas: O Baile dos Anjinhos, A Criação da Luz, A Disputa do Sol e da Lua, A Criação de Adão e Eva, A Passagem dos Animais, A Tentação da Serpente, a Expulsão do Paraíso, Abel e Caim, Caim no Inferno, fados e saiadas (momentos coreográficos) como aquela em que aparece a Menina Virgininha e suas primas, e a Pega do Touro. É uma verdadeira festa onde também tem lugar alguma pancadaria, o escárnio e a escatologia, pois esses bonecos são impuros em vários sentidos.

São mestiços e detentores de uma hibridização difícil de ser sumariamente classificada. Apresentam elementos assemelhados a outros gêneros de teatro musical como as burletas, o vaudeville, as folies feéricas, a revista. Se avizinham daquela definição de Teatro Total, onde a representação utiliza recursos de diversas linguagens artísticas, invocando todos os sentidos do espectador para a criação de uma totalidade.  Apesar de enquadrar-se na categoria Teatro de Marionetas, e mais especificamente naquela definição a partir da técnica de manipulação utilizada – efetivamente são bonecos de varão, manipulados a partir de cima, como as marionetas de fios – pode ser dito que o Bonecos de Santo Aleixo é também Teatro de Texto. Essa dimensão textual é mesmo indissociável da ação cênica e se estabelece em discurso direto, livre, trazendo a oralidade em dimensões de verso e prosa. Mas seu complexo dramatúrgico não se restringe à constituição de diálogos, posto que a música, cantada e instrumental, a sonoridade percutida dos pés dos manipuladores e dos bonecos, a dança e a relação dialógica com a plateia ganham relevo. Sobre esse aspecto Chistine Zurbach (2009, p.203) afirma:

Sem ambição literária, são textos distintos dos géneros conceituados do teatro erudito: são caracterizados pela sua brevidade (no sentido da sua curta extensão textual)[1] pela pobreza da sua versificação, por uma relativa pobreza dramática, pela linearidade das suas fábulas construídas em torno do prazer do engano, e associam o quotidiano e o poético na sua linguagem com evidentes desvios da norma linguística, sem se privarem de recorrer à conhecida expressividade gestual própria do cómico da farsa. Na relação com o espectador, revelam, no entanto, a eficácia comunicativa de formas não canónicas (ou não ortodoxas e por isso, consideradas como menores na hierarquia dos géneros), que a irreverência permitida ao teatro de marionetas pode manter vivas até hoje.

Por esses e outros tantos motivos Zurbach propõe o enquadramento como Teatro Mínimo.  No repertório do coletivo artístico podem ser contados nos dedos o número de cenários e figuras, os poucos adereços, a serviço de cenas curtas e de narrativa linear. “Menores porque mínimas em termos de encenação” complementa a autora.

Em sentido mais poético o espetáculo Auto da Criação do Mundo dos Bonecos de Santo Aleixo se inscreve nos domínios daquilo que pode ser aqui definido ligeiramente como Teatro da Penumbra, com seus encantos iluminados por chamas vivas à semelhança do que ocorre também com aqueles parentes distantes dos teatros de sombras asiáticos.  Uma denominação que, por si, merece uma reflexão mais aprofundada. Destemidas, essas marionetas lusas brincam literalmente com fogo e pólvora, como se vê no encantador bailar dos anjinhos que levam velas acesas, ou quando Caim vai ao inferno em meio a estrondo e fumo, ou no foguetório de finalização da passagem da Pega do Touro.  Como foi dito inicialmente esses bonecos são ardilosos e explosivos. São e não são inocentes. Eles promovem bem mais que simples distração com seu espírito festivo. São capazes de guiar os espectadores em um delicioso passeio entre o sagrado e o profano, postados na liminaridade entre o real e o irreal, estabelecendo pontes entre o passado e o presente.  Eles se afirmam como relevante patrimônio cultural imaterial português que bem merece ser reconhecido como patrimônio da humanidade.

Marcondes Gomes Lima

Referências:

CARLSON, Marvin. (1997). Teorias do teatro: estudos histórico-críticos, dos gregos à atualidade. São paulo: UNESP.

ORTEGA Y GASSET, José. (1958). Idea del Teatro. Madri: Revista do Occidente.

ZURBACH, Christine (2009). As formas breves e o teatro mínimo nos Bonecos de Santo Aleixo. Revista Forma Breve, Nº 5, 199-208. Aveiro: Universidade de Aveiro. Consultado em 15-05-2021 em https://proa.ua.pt/index.php/formabreve/issue/view/395

RIBEIRO, Rute; VIEIRA, Luiz (2021). FIMFA Lx em fotos: Festival internacional de Marionetas e Formas Animadas – 20 anos. Lisboa: A Tarumba.

Programa Festival internacional de Marionetas e Formas Animadas- FIMFA LX 21. (2021). Lisboa, A Tarumba.


[1] Nota de rodapé da autora: “Não utilizamos aqui a designação no seu sentido restrito, que apenas se aplica a realizações literárias breves com valor de verdade universal, mas enquanto designação de produções em formatos pequenos, com poucas personagens e de pouca extensão no tempo”.

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