crítica

Se Não Houvesse Corpo Não Haveria Pecado [A Casa de Bernarda Alba]

 

CasaDeBernardaAlba_24Sean O’Callaghan, Paula Liberati e Duarte Melo © Mário Campo Rainha

 

A casa de Bernarda Alba, Texto Original: Federico Garcia Lorca. Direção, Espaço Cénico e Texto: João Garcia Miguel. Interpretação: Sean O’Callaghan, Annette Naiman, Paula Liberati e Duarte Melo. Desenho de Luz: João Garcia Miguel. Figurinos: Rute Osório de Castro. Assistência de Encenação: Rita Costa e Eurico D’Orca.

 

Teatro Ibérico, 18 de outubro de 2018

As últimas criações de João Garcia Miguel têm partido da revisitação de vários clássicos, resultando num palimpsesto que procura adequá-los à atualidade. Os temas funcionam sobretudo como metáforas para as questões e preocupações deste criador, focados numa realidade emergente na qual valores humanos parecem ter sido erradicados da própria “humanidade”, mantendo uma linha narrativa focada na fábula original.

No caso de A Casa de Bernarda Alba, há uma operação diferente do texto. O que nos é servido é uma parábola, ou melhor, uma dupla parábola que nos remete para todos os ditadores e braços da extrema-direita, que proliferam no mundo atual, dos quais Trump, é expressamente referido.

Uma dupla parábola porque, antes de entramos na casa de Alba, propriamente dita, Sean O’Callaghan narra-nos uma lenda japonesa sobre a imposição de normas de conduta por parte do poder, idênticas às de Franco da Espanha de Lorca, de Salazar, de Hitler, Mussolini e tantos outros que por razões muito pessoais instauraram ditaduras. Esta antecâmara instala no público a consciência de que vai receber um espetáculo que o confrontará com repressões absurdas (desprovidas de qualquer lógica).

Façamos uma breve sinopse: Bernarda Alba, ao enviuvar, assume o poder absoluto da casa de família, obrigando as filhas a viver em retiro total e não sociabilizarem com ninguém, sobretudo se for alguém do sexo masculino. Desse modo, as cinco irmãs (Angústias, Madalena, Martírio, Amélia e Adela) são mantidas numa vigilância repressora. As janelas são blindadas de modo a que não haja qualquer comunicação com o exterior. Mas duas das irmãs (Adela e Martírio) apaixonam-se por um rapaz da aldeia (Pepe Romano), numa disputa que terminará de modo drástico: Adela mata-se para não ter que viver no regime que a mãe impôs.

Num ambiente gótico, assistimos a esta galeria de personagens, preocupações e digladiações com alguma gravidade que, pontualmente, é distraída por Duarte Melo (a governanta) que, num domínio técnico de ligação entre corpo e voz digno de antologia, alivia um pouco a tensão que o tema do espetáculo instalou. Outro dos momentos de alguma “esperança” acontece quando, com a ausência de Bernarda Alba, as filhas e a governanta dançam a Macarena – o tema dos Los Del Rio que, num ritmo contagiante, diz:

Dale a tu cuerpo alegria Macarena
Que tu cuerpo es pa’ darle alegria y cosas buenas
Dale a tu cuerpo alegria, Macarena Hey Macarena.

Macarena tiene un novio que se llama
Que se llama de apellido Vitorino,
Que en la jura de bandera el muchacho
Se metio con dos amigos.
Macarena, Macarena, Macarena
Que le gustan los veranos de Marbella
Macarena, Macarena, Macarena
Que le gusta la movida guerrillera.
Macarena sueña con El Corte Ingles
Que se compra los modelos mas modernos
Le gustaria vivir en Nueva York
Y ligar un novio nuevo.

Se bem que possa parecer desajustado, o tema é bastante pertinente não só pela letra como pelo que simboliza no que diz respeito à libertação do corpo, da vontade e do desejo.

Sean O’Callaghan dá corpo e voz a Bernarda Alba, bem como à espécie de compére intimista que vai comentando o que se passa, enquanto fala diretamente com o público. Com uma função ingrata porque muito complexa, O’Callaghan consegue vencer as eventuais falhas que podiam daí advir com um registo e uma técnica que lhe permitem deambular pelas personagens de modo camaleónico; Annette Naiman, num registo mais expressionista, que cria empatia com o público, oferece-nos uma forte versão de Angústias apesar de amargurada; Paula Liberati tem a seu cargo Adela e o seu registo naturalista imprime autenticidade à alegria e tristeza alternadas; Duarte Melo, numa dimensão física fora do comum, interpreta a governanta, como já referi.
No palco está um estrado metálico que funciona como escudo e cama. O desenho de luz é intimista e sugere as alterações de hora.

Uma vez mais, o guarda-roupa de Rute Osório de Castro consegue manter-nos simultaneamente atentos e inquietos, mantendo presente a sensação de que, parafraseando Jean Genet, em Le Funambule, se não houvesse corpo não haveria pecado. Logo, não haveria repressão.

João Garcia Miguel, para além das suas preocupações sobre o mundo atual, permite-nos conhecer um pouco mais o seu imaginário querubiniano e mitológico. A imagética que imprime ao conjunto de movimentos entre os corpos que, quando se imbricam, constroem figuras extasiantes, a par dos registos vocais que pede aos atores, levam-nos a viajar por microcosmos da fantasia. Também o arrojo com que cruza estéticas várias ora com grandes tiradas de texto (pouco habitual nos seus espetáculos), ora com sequências de movimento e de voz que desafiam os limites físicos dos atores, evidenciam a sua postura de que não irá baixar armas ou braços e muito menos largar amarras por imposição de uma política cultural que insiste em consolidar um formato adequado ao momento económico que se atravessa. Através dessa coexistência de fórmulas, de técnicas, das diferentes escolas dos atores e dos vários sotaques, o resultado, que não é de todo – e propositadamente – equilibrado, funciona como um apanágio de que – numa época de refugiados, migrações, mestiçagens e coexistência de culturas em Portugal (e no resto do Mundo) –, mais do que a mediatização das chamadas “guerras santas”, o que urge é integrar, sem forçar a diluição das especificidades. Coexistir. Aprender com os outros e funcionar com eles. Sem represálias nem falsos moralismos. Tal como existem vários países e várias culturas, também existem várias pessoas e vários teatros que devem integrar e integrar-se no seu tempo sem forçar fusões impossíveis.

 

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The House of the Rising Sun [Phobos ou os órfãos de amor]

PHOBOS 2 foto

Phobos ou os órfãos do amor, de Diogo Tavares. Co-criação: Alexandre Tavares e Sylvie Rocha. Interpretação: Diogo Tavares, Guilherme Barroso, Isabel Guerreiro, Lídia Muñoz e Maria Curado Ribeiro. Música original: Manuel Rubio. Design Gráfico: Tiago Silva. Exposição Fotográfica: Fernando Lopes. Vídeo Instalação Timeless: Sofia Marques Ferreira. Apoio à produção: Daniela Cardoso e Henrique Costa e Santos.

 

Quartel de Santa Bárbara, 6 de maio de 2018

A parceria entre Alexandre Tavares e Sylvie Rocha na exploração de um cruzamento de linguagens cénicas resulta numa proposta arriscada em Phobos. Apesar de, imediatamente, nos remeter para uma situação de medo (fobia, do grego phobos), o texto de Diogo Tavares é, felizmente, permeável a várias leituras. Essa condição permite que os encenadores instalem a sua imagética sem prejuízo da leitura e das sensações de cada espectador.

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Não existe no inferno fúria igual à de uma mulher desprezada [Medeia]

20180221_©MarianaSilva_MEDEIA_0027.jpeg © Mariana Silva

 

Medeia, de Francisco Luís Parreira. Direção e Espaço Cénico: João Garcia Miguel; Música: Mário Laginha; Interpretação: David Pereira Bastos e Sara Ribeiro; Desenho de Luz: João Garcia Miguel; Figurinos: Rute Osório de Castro; Assistência de Encenação: Rita Costa.

Teatro Ibérico, 22 de fevereiro de 2018

 

Na continuação da revisitação dos textos clássicos, permeando-os à atualidade e transpondo-os para uma performatividade adequada aos tempos em que o ritmo alucinante da cidade insiste em remeter os cidadãos para um espaço de falsa privacidade e conforto – o lar –, João Garcia Miguel apresenta o seu olhar sobre Medeia, a partir de uma versão textual de Francisco Luís Parreira. É uma forma de manter viva a memória de um teatro que questiona e reflete a condição humana em todas as suas frentes de ação. É também uma forma de nos lembrar que não nos devemos esquecer que o teatro tem uma origem milenar tal como aquele por quem e para quem é feito: O Homem.

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A brisa deixa a sua marca e o hábito faz o monge [Sopro]

Sopro©Filipe Ferreira
Isabel Abreu, Cristina Vidal, Sofia Dias, Beatriz Brás, Vítor Roriz e João Pedro Vaz © Filipe Ferreira

 

Sopro de Tiago Rodrigues; Encenação: Tiago Rodrigues; Com: Beatriz Brás, Cristina Vidal, Isabel Abreu, João Pedro Vaz, Sofia Dias e Vítor Roriz; Cenografia e Desenho de Luz: Thomas Walgrave; Figurinos: Aldina Jesus; Sonoplastia: Pedro Costa; Assistência de Encenação: Catarina Rôlo Salgueiro

Teatro Nacional D. Maria II, 2 de novembro de 2017

 

Não é habitual a Arte debruçar-se sobre os seus procedimentos. Essa tarefa cabe, regra geral, aos investigadores e estudiosos. É certo que, no que diz respeito ao teatro, há muito que nos habituámos a ver espetáculos ou a ler textos onde este se revela um pouco. Desde William Shakespeare, que coloca nos discursos de Hamlet questões sobre o trabalho do ator, até Pirandello que, ora coloca as personagens à procura de um autor, ora coloca os atores a improvisarem, passando por Molière que apresenta um improviso com pré-forma. No entanto, mesmo esses casos de metateatro não se debruçam sobre categorias profissionais que não as dos atores, encenadores e dramaturgos. Pelo menos desconheço que exista qualquer outro texto/espetáculo que fale do cenário ou do ponto.

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