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Viagem num Sofá [Viagem de Inverno]

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Viagem de Inverno de Elfriede Jelinek. Encenação: Nuno Carinhas; Intérpretes: Ana Cris, Flávia Gusmão, Teresa Gafeira; Tradução: António Sousa Ribeiro; Cenografia e figurinos: Nuno Carinhas; Desenho de luz: Nuno Meira. Companhia de Teatro de Almada.

 

Teatro Municipal Joaquim Benite, 25 de Janeiro de 2020

 

Bons atores conseguem fazer algo interessante e belo até de uma lista telefónica. Espécie de lista telefónica poética ou de bula de antidepressivo enumerando os efeitos adversos, o texto de Elfriede Jelinek curaria insónias a cocainómanos. Especialmente se recitado durante duas horas e vinte. O género de teatro de paisagens poéticas tem momentos lindíssimos quando em conjunção com outros momentos dramáticos como a introdução de um agon (conflito). Contudo, por si mesmo e forçado por extenso período não tem mais eficácia do que a imagem do Grand Canyon no screensaver de um computador. Não perde a beleza, mas a sua presença torna-se rotineira. Salvou-se deste pesadíssimo texto lírico quem tem realmente prazer com o trabalho de ator. Por aí houve muito por onde nos deleitarmos. As três atrizes deste espetáculo (Ana Cris, Flávia Gusmão e Teresa Gafeira) escolheram três métodos diferentes de entregarem as centenas de páginas de prosa poética decoradas: um teatro mais físico, um outro centrado nas expressões faciais e um de enfase no textual. O cenário ofereceu-se-nos demasiado simples para uma obra com tantas possibilidades de simbolismo. Duas mesas em L, algumas cadeiras, uma chaise-longue, três portas velhas, várias estantes de leitura e dois cavaletes. Atrás de um vidro surgiu uma pequena árvore desfolhada, como uma Yggdrasil que seca perdendo a sua vitalidade de axis mundi.

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Os Novos Peter Pans [A Golpada]

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A Golpada. A Golpada, de Dea Loher. Versão: João Lourenço, Vera San Payo de Lemos Dramaturgia: Vera San Payo de Lemos. Encenação e Cenário: João Lourenço. Direção Musical: Renato Júnior. Figurinos: Ana Paula Rocha. Vídeo: Nuno Neves. Interpretação: Ana Guiomar, Carlos Malvarez, Cristóvão Campos, Rui Melo, Tomás Alves. Músicos: Giordanno Barbieri, Mariana Rosa. Teatro Aberto.

 

25 de Julho de 2019, Teatro Aberto

Todas a gerações nascidas da sociedade de consumo têm tido um conjunto de obras que caracterizam os seus dilemas. A geração pós-guerra teve Saved e nós, os da geração X, tivemos Kids e Trainspotting. Muitas outras obras versaram sobre a revolta dos jovens adultos e o perigo do niilismo, umas apresentando modelos para uma crítica da sociedade, outras romantizando a alienação hedonista. Podemos incluir A Golpada num conjunto de obras que caracteriza a chamada geração Millennial. Tal como as suas predecessoras vem com uma romantização do niilismo aliada à crítica social. O que fazer para aproveitar essa imensa energia do espírito de revolta da nossa juventude? Isso, é claro, depende das opções disponíveis. E essas opções podem estar limitadas quando se é como os protagonistas desta peça, Jesus (Carlos Malvarez) e Maria (Ana Guiomar), filhos gémeos de um dealer e de uma alcoólica.

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Resignação e Complacência no IV Reich [Terror e Miséria]

image© Maria Antunes

Terror e Miséria, a partir de Terror e Miséria no III Reich de Bertolt Brecht. Encenação: António Pires. Interpretação:  Adriano Luz, Carolina Serrão, Francisco Vistas, Inês Castel-Branco, Jaime Baeta, João Barbosa, João Maria, Mário Sousa, Rafael Fonseca e Sandra Santos. Cenografia: Alexandre Oliveira. Iluminação: Rui Seabra. Figurinos: Luís Mesquita. Música: Nicholas McNair. Ar de Filmes/Teatro do Bairro.

 

12 de Julho de 2019, Palco Grande da Escola D. António da Costa, Almada

36º Festival de Almada

 

Assistido no dia em que o Twitter cancelou a conta de apoio a Assange, este espetáculo levanta algumas questões pertinentes sobre a atualidade. Portamos connosco instrumentos com microfones, câmeras e dispositivos de localização. Confiamos às redes sociais os aspetos íntimos do nosso quotidiano. Os antigos poderes não necessitam mais de nos controlar pela política da bota na face. Os bufos tornaram-se dispendiosos e ineficazes. E no país dito o mais livre do mundo, os centros de detenção de imigrantes estão agora a ser apelidados de “os novos campos de concentração”.

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