crítica

Esbracejar, dar à manivela e levantar voo [Je brasse de l’air]

Je-brasse-de-l_air

Je brasse de l’air. Cie L’Insolite Mécanique. Conceção, texto, construção e interpretação: Magali Rousseau; Encenação: Camille Trouvé; Desenho de som e luz: Julien Joubert; Clarinete: Stéphane Diskus; Movimento: Marzia Gambardella; Olhar exterior: Yvan Corbineau; Direção de cena: Mathilde Salaün; Difusão: Christelle Lechat; Fotografias: Julien Joubert, Laurent Gayte; Apoios: Le Grand Parquet, Le Vélo Théâtre, Anis Gras – Le Lieu de l’Autre, La Mécanique des Anges, Le Jardin d’Alice, Cie Les Anges au Plafond

 

São Luiz Teatro Municipal, 11 de Maio de 2018

Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas

FIMFALx’18

 

  Um homem equipado com asas pode vencer a resistência do ar, conquistar esse elemento e subir, apoiado nele.

Leonardo Da Vinci

 

Em Cinco semanas em balão, quando Dick Kennedy tenta dissuadir Samuel Fergusson da sua expedição, ele responde obstinadamente: “Os obstáculos são inventados para serem ultrapassados; quanto aos perigos, quem pode vangloriar-se de os evitar? Tudo é perigo na vida; pode ser muito perigoso sentar-se à mesa ou pôr o seu chapéu na cabeça”[1]. Samuel Fergusson acaba por convencer o seu amigo a percorrer o mundo a bordo do balão Vitória, desafiando-o a correr riscos e a enfrentar o perigo da queda.

Continuar a ler

Anúncios
Standard
crítica

Descobrir o que fazer a solo. Quando as marionetas indicam o caminho. [OLO – um solo sobre um solo]

olo

Olo, um solo sobre um solo. Encenação, Cenografia e Interpretação: Igor Gandra; Música; Carlos Guedes; Desenho de luz: Rui Maia; Assistência de encenação: Carla Veloso; Vídeo de cena: Igor Gandra (conceito), Riot Films (imagem e edição), Carla Veloso, Eduardo Mendes, Fátima Fonte, Hernâni Miranda (manipuladores) Mariana Figueroa (montagem de luz); Direção de montagem: Eduardo Mendes; Montagem e operação de luz: Mariana Figueroa; Operação de som: Carla Veloso; Realização plástica: Eduardo Mendes e Hernâni Miranda; Confeção de figurinos: Ana Ferreira; Teatro de Ferro [Portugal].

Teatro Taborda, 8 de Maio de 2018 
Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas – FIMFA Lx ’18

 

 

    Pinóquio tinha as pernas enrijecidas e não sabia mexer-se e Geppetto conduzia-o pela mão para ensinar-lhe a dar um passo atrás do outro. Quando as pernas ficaram mais soltas, Pinóquio começou a andar sozinho e a correr pelo quarto; até que, atravessando a porta de casa, saiu para a rua e fugiu.

Carlo Collodi

 

Quando o marceneiro Geppetto constrói Pinóquio projeta no pequeno boneco de madeira uma forma de não estar sozinho. Desde o momento em que é esculpido, Pinóquio manifesta vontade própria, não se deixando manipular. À medida que o pedaço de madeira vai ganhando forma e vida nas mãos de Geppetto, cresce a sua autonomia e a possibilidade de Pinóquio desobedecer ao seu criador, abandoná-lo e descobrir o mundo sozinho.

Continuar a ler

Standard
crítica

The House of the Rising Sun [Phobos ou os órfãos de amor]

PHOBOS 2 foto

Phobos ou os órfãos do amor, de Diogo Tavares. Co-criação: Alexandre Tavares e Sylvie Rocha. Interpretação: Diogo Tavares, Guilherme Barroso, Isabel Guerreiro, Lídia Muñoz e Maria Curado Ribeiro. Música original: Manuel Rubio. Design Gráfico: Tiago Silva. Exposição Fotográfica: Fernando Lopes. Vídeo Instalação Timeless: Sofia Marques Ferreira. Apoio à produção: Daniela Cardoso e Henrique Costa e Santos.

 

Quartel de Santa Bárbara, 6 de maio de 2018

A parceria entre Alexandre Tavares e Sylvie Rocha na exploração de um cruzamento de linguagens cénicas resulta numa proposta arriscada em Phobos. Apesar de, imediatamente, nos remeter para uma situação de medo (fobia, do grego phobos), o texto de Diogo Tavares é, felizmente, permeável a várias leituras. Essa condição permite que os encenadores instalem a sua imagética sem prejuízo da leitura e das sensações de cada espectador.

Continuar a ler

Standard
crítica

Não há flores em Istambul [No hay flores en Estambul]

29633362_1175377532600696_1054765432_o© Rui Eugénio

No hay flores en Estambul, de Iván Solarich. Encenação: Mariano Solarich. Dramaturgia: Iván Solarich, Mariano Solarich. Interpretação: Iván Solarich. Cenografia: Agustín Romero. Figurinos: Lucía Acevedo. Iluminação: Agustín Romero. Selecção musical: Mariano Solarich. Teatro El Mura, Uruguai.

Teatro Pax Júlia (Sala Estúdio), Beja, 17 Março 2018

FITA ‘18 – Festival Internacional de Teatro do Alentejo (5ª Edição)

Estreado em Havana, em 2017, No hay flores en Estambul é um monólogo que se integra na habitual estética de “auto-ficção” da companhia uruguaia, uma espécie de docufiction sob a forma de teatro. É um espectáculo de linguagem híbrida, que cruza cinema, teatro e narrativa, e que parte de uma experiência pessoal: o impacto que a estreia do filme de Alan Parker, Midnight Express (1978), teve em Iván Solarich quando este ainda era estudante de teatro em Montevideo. Essas memórias pessoais articulam-se com a narrativa do filme, com o impacto internacional que este teve na imagem da Turquia e com o tratamento que o argumentista da película, o jovem Oliver Stone, deu à obra de Billy Hayes, na qual o filme se baseia.

Continuar a ler

Standard
crítica

Em busca da terra prometida [Tiempos de Paz]

tiempos de paz_1

Tiempos de Paz. Adaptação do texto, dramaturgia: José Kemelmajer, Gustavo Torres. Cenografia: Susana Rivarola. Musicalização, som: Gonzalo De Borbón, José Kemelmajer. Fotografia, vídeo, design gráfico, comunicação: Axel Gastón Resinovsky. Interpretação: José Kemelmajer, Gustavo Torres. Assistência Técnica, direcção: Franco Quagliarella. Encenação: Daniel Posada. Produção: ZZIN TEATRO e JAKO Producciones em co-produção com Espacio Cultural Julio Le Parc. M/12. 60 min.

14 de Março de 2018, Sala- Estúdio do Teatro Municipal Pax Julia, Beja

FITA – Festival Internacional de Teatro do Alentejo

Na segunda semana do Festival Internacional de Teatro do Alentejo, chega-nos uma adaptação do texto original de Bosco Brasil que narra o encontro entre o refugiado de guerra Clausewitz e o agente alfandegário Segismundo. Novas directrizes em tempo de paz, escrito em 2001, ganhou o prémio Shell e APCA e conta a história de um judeu polaco que tenta obter o visto de entrada no porto do Rio de Janeiro durante a ditadura de Getúlio Vargas, no final da Segunda Guerra Mundial.

Continuar a ler

Standard
crítica

“Como porcos esfomeados, anseiam pelo ouro.” [La Zanja]

la zanja

La Zanja, de Diego Lorca e Pako Merino. Encenação: Diego Lorca, Pako Merino; Interpretação: Diego Lorca, Pako Merino; Desenho de som: Jonatan Bernabeu; Composição Musical: Jonatan Bernabeu; Desenho de Iluminação: Albert Anglada, Diego Lorca; Desenho de Cenografia: Titzina; Construção cenográfica: Núria Espinach, Escenograes Castells; Figurinos: Núria Espinach; Produção: Titzina. Titzina, Espanha.

Teatro Pax Júlia (Sala Estúdio), Beja, 17 Março 2018

FITA ‘18 – Festival Internacional de Teatro do Alentejo (5ª Edição)

 

    Los cristianos, con sus caballos y espadas y lanzas comienzan a hacer matanzas y crueldades extrañas en ellos. Entraban en los pueblos ni dejaban niños, ni viejos ni mujeres preñadas ni paridas que no desbarrigaban y hacían pedazos, como si dieran en unos corderos metidos en sus apriscos. Hacían apuestas sobre quién de una cuchillada abría el hombre por medio o le cortaba la cabeza de un piquete o le descubría las entrañas. Tomaban las criaturas de las tetas de las madres por las piernas y daban de cabeza con ellas en las peñas.

Bartolomé de Las Casas

 

Em Portugal (ou no Brasil), “zanja” pode significar trincheira, sarjeta, valeta ou fossa. No Peru, por exemplo, pode ser encarada como referência a uma das 17 operações da empresa peruana de extracção de minério Buenaventura – a primeira empresa latino-americana do sector com cotação na bolsa de valores de Nova Iorque –, mais precisamente à subsidiária que explora, desde 2010, uma mina de ouro e prata a céu aberto, em Santa Cruz, Cajamarca, no norte do país, e que, apesar do código de ética e preocupações ambientais apregoados pela empresa-mãe, tem levado a cabo a destruição de floresta para viabilizar as suas operações e a descarga de resíduos tóxicos no meio-ambiente. La Zanja pode ser, também uma criação da companhia de teatro catalã Titzina, estreada em 2017 e construída com base em pesquisa documental desenvolvida a partir das crónicas que relatam a colonização espanhola da América Latina e de recolha documental no terreno (Peru). Diego Lorca e Pako Merino são os responsáveis pela dramaturgia, encenação e interpretação deste espectáculo.

Continuar a ler

Standard
crítica

Não existe no inferno fúria igual à de uma mulher desprezada [Medeia]

20180221_©MarianaSilva_MEDEIA_0027.jpeg © Mariana Silva

 

Medeia, de Francisco Luís Parreira. Direção e Espaço Cénico: João Garcia Miguel; Música: Mário Laginha; Interpretação: David Pereira Bastos e Sara Ribeiro; Desenho de Luz: João Garcia Miguel; Figurinos: Rute Osório de Castro; Assistência de Encenação: Rita Costa.

Teatro Ibérico, 22 de fevereiro de 2018

 

Na continuação da revisitação dos textos clássicos, permeando-os à atualidade e transpondo-os para uma performatividade adequada aos tempos em que o ritmo alucinante da cidade insiste em remeter os cidadãos para um espaço de falsa privacidade e conforto – o lar –, João Garcia Miguel apresenta o seu olhar sobre Medeia, a partir de uma versão textual de Francisco Luís Parreira. É uma forma de manter viva a memória de um teatro que questiona e reflete a condição humana em todas as suas frentes de ação. É também uma forma de nos lembrar que não nos devemos esquecer que o teatro tem uma origem milenar tal como aquele por quem e para quem é feito: O Homem.

Continuar a ler

Standard