crítica

Esbracejar, dar à manivela e levantar voo [Je brasse de l’air]

Je-brasse-de-l_air

Je brasse de l’air. Cie L’Insolite Mécanique. Conceção, texto, construção e interpretação: Magali Rousseau; Encenação: Camille Trouvé; Desenho de som e luz: Julien Joubert; Clarinete: Stéphane Diskus; Movimento: Marzia Gambardella; Olhar exterior: Yvan Corbineau; Direção de cena: Mathilde Salaün; Difusão: Christelle Lechat; Fotografias: Julien Joubert, Laurent Gayte; Apoios: Le Grand Parquet, Le Vélo Théâtre, Anis Gras – Le Lieu de l’Autre, La Mécanique des Anges, Le Jardin d’Alice, Cie Les Anges au Plafond

 

São Luiz Teatro Municipal, 11 de Maio de 2018

Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas

FIMFALx’18

 

  Um homem equipado com asas pode vencer a resistência do ar, conquistar esse elemento e subir, apoiado nele.

Leonardo Da Vinci

 

Em Cinco semanas em balão, quando Dick Kennedy tenta dissuadir Samuel Fergusson da sua expedição, ele responde obstinadamente: “Os obstáculos são inventados para serem ultrapassados; quanto aos perigos, quem pode vangloriar-se de os evitar? Tudo é perigo na vida; pode ser muito perigoso sentar-se à mesa ou pôr o seu chapéu na cabeça”[1]. Samuel Fergusson acaba por convencer o seu amigo a percorrer o mundo a bordo do balão Vitória, desafiando-o a correr riscos e a enfrentar o perigo da queda.

Magali Rousseau é artista plástica e durante sete anos construiu máquinas de cena para a companhia Les Anges au Plafond. Sair da penumbra e manipular as suas engenhocas em cena foi um sonho concretizado com a criação do espetáculo Je brasse de l’air, centrado no desejo de voar suscitado pelas suas máquinas e memórias. Voar neste espetáculo é também uma metáfora para correr riscos, ousar cair e falhar. As máquinas de Magali Rousseau são os veículos para renunciar ao papel de sombra, peritas em esgaçar limites, desafiando a anatomia e a gravidade.

Partilhando o palco com os espetadores e a sua criadora, as máquinas apetrechadas com ímans, roldanas e penas voam, esbracejam e oscilam suspensas, movidas por manivelas, motores elétricos, a vapor ou em equilíbrio do seu próprio peso, num diálogo cúmplice com o som do clarinete de Julien Joubert. Neste espetáculo deambulatório, a artista vai registando a giz branco as suas memórias de infância, traçando o percurso e as fronteiras de proximidade com o espetador e desfiando a narrativa: “Uma casa de pedra, um quintal, uma cerca com galinhas, e o antigo Citroen DS estacionado sempre no mesmo sítio. Entrávamos pela cozinha”[2].

Por entre máquinas veículos e bichos mecânicos surge um peixe vermelho num aquário, único elemento orgânico, em contra-peso com uma aranha mecanizada com asas, intitulado Canto das sereias. Je brasse de l’air é simultaneamente o título do espetáculo e o nome de uma das esculturas, onde vemos uma pequena figura esguia de aço com óculos de aviação agitar os braços, olhando para a esquerda e para a direita, num movimento repetitivo e célere, sem contudo sair do mesmo lugar. Impossível não associar esta figura à sua criadora, também ela munida de óculos de aviação, ajeitando constantemente a postura de equilíbrio.

Desfiando a narrativa da memória da mãe que não sabia nadar e a ensinou a voar, a artista vai partilhando connosco os preparativos para a viagem. No entanto, o voo é sempre adiado e restam as tentativas que resultam em queda ou aterragem precipitada. Novamente, sobe a um banquinho para preparar a ascensão, ajeita a postura, abre os braços, fita o horizonte, verifica os obstáculos, ganha velocidade e experimenta o equilíbrio: “Gostava de costurar asas na minha pele…. Então, eu subo para ver o céu, e do alto do meu banquinho, invento uma pista de descolagem. Sobretudo, não esquecer: controlar os movimentos, acalmar os nervos, evitar cair”[3].

 

[1] Verne, Jules, Cinq semaines en ballon, La Bibliothèque du Collectionneur, Paris, 2013, pp. 17-18 (tradução livre).

[2] Texto do espetáculo distribuído na folha de sala.

[3]Idem, Ibidem.

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